voo particular 16.06.2026 | 14h24
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
A investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master identificou indícios de que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro determinou a entrega de R$ 350 mil em dinheiro em espécie ao senador Ciro Nogueira (PP-PI). Segundo os investigadores, o valor foi transportado dentro de uma sacola em uma aeronave particular que decolou de São Paulo com destino a Brasília.
As informações constam de relatórios que tiveram o sigilo retirado nesta terça-feira (16) pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça. Para a Polícia Federal, o episódio reúne um conjunto de evidências que reforça a suspeita de corrupção envolvendo o ex-banqueiro e o parlamentar.
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Segundo a Polícia Federal, o episódio começou em 6 de agosto de 2024, quando Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado pela investigação como operador financeiro do empresário, encaminhou ao banqueiro uma lista de pagamentos pendentes.
Entre os compromissos aparecia a anotação “Espécie Ciro 350k”, referência que, segundo a PF, indicava um pagamento de R$ 350 mil em dinheiro vivo destinado ao senador.
Nas mensagens analisadas, Vorcaro não questiona o pagamento em espécie. Pelo contrário, responde que o dinheiro estava “indo parte” e determina que a pendência seja resolvida, escrevendo: “resolve ciro” e “Paga 7,5 e ciro”.
O R7 tenta contato com as defesas de Vorcaro e Ciro. O espaço segue aberto para manifestação. No mês passado, quando foi alvo de mandados de busca e apreensão por causa da relação com o ex-banqueiro, o senador disse estar com a consciência tranquila.
“Acusações, todos os políticos em algum grau já sofreram, ainda mais o presidente de um grande partido, com muita influência, como é meu caso. Não serei o primeiro nem o último. Agora, comprovar é outra história”, afirmou o senador à época.
Sacola levada em avião
Ainda segundo a investigação, no mesmo dia foi realizado um voo que saiu de São Paulo com destino a Brasília, fazendo escala no Rio de Janeiro.
O piloto Mauro Caputti Mattosinho afirmou em depoimento que transportava uma sacola que, segundo sua percepção, possivelmente continha dinheiro em espécie.
Durante o voo, de acordo com o relato prestado aos investigadores, um dos passageiros — o empresário Roberto Leme, conhecido como “Beto Louco” e investigado em outro esquema de corrupção — mencionou repetidamente o nome do senador.
Segundo o piloto, o empresário perguntava diversas vezes se “estava tudo certo com o Ciro” e se “o Ciro já estava os aguardando”, afirmações consideradas relevantes pela Polícia Federal para reconstruir a dinâmica da entrega.
Relação de proximidade
Os relatórios da PF descrevem uma relação de forte proximidade pessoal entre Vorcaro e Ciro, marcada por viagens internacionais, encontros privados, conversas frequentes, voos em jatinhos particulares e demonstrações públicas e privadas de amizade. Segundo os investigadores, porém, a intimidade não era apenas pessoal, mas fazia parte de uma relação estruturada de troca de vantagens.
Entre as provas reunidas estão fotografias que mostram Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro juntos em viagens ao exterior, registros dentro de aeronaves particulares e conversas extraídas de aparelhos eletrônicos apreendidos durante a investigação.
A Polícia Federal afirma que a amizade entre o senador e o banqueiro “transcende a mera relação pessoal, revelando-se, na verdade, uma relação funcional e instrumental, estruturada a partir da convergência de interesses ilícitos e orientada pelo benefício mútuo extraído por cada um dos envolvidos”.
Para a corporação, a relação entre os dois se caracteriza como um “típico mutualismo ilícito”. Na avaliação da corporação, a relação de afeto era consequência da convergência de interesses entre ambos.
Nas mensagens, os dois utilizam expressões como “saudades”, “meu amigo”, “quero lhe ver” e “irmãozão”. Em conversa com sua então namorada, Martha Graeff, Vorcaro afirma que desejava apresentá-la ao senador, descrevendo-o como “muito amigo meu” e “um dos meus grandes amigos de vida”.
Luxo, viagens e repasses
A Polícia Federal afirma ter encontrado evidências de que Vorcaro financiava uma série de benefícios destinados ao senador.
Os investigadores apontam que o banqueiro custeava viagens internacionais em aeronaves particulares, hospedagens em hotéis de luxo e despesas pessoais de Ciro Nogueira e de sua companheira, Flávia Rosalen.
Entre os gastos listados estão:
Uma hospedagem em uma suíte em Nova York, no valor de US$ 47.779,80;
Viagens para Courchevel, nos Alpes Franceses, com estadias em hotéis cinco estrelas e refeições em restaurantes renomados;
Despesas em Paris, incluindo uma conta de US$ 1.981,12 em um restaurante;
Além de aproximadamente R$ 91 mil em gastos durante uma viagem a Portugal.
Os relatórios também registram que Ciro utilizou, ao menos três vezes, aeronaves particulares pertencentes a Vorcaro em voos internacionais.
Além das viagens, a PF afirma que o senador usufruía de um apartamento pertencente ao empresário como se fosse seu imóvel.
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