23.10.2005 | 03h00
Alma Gêmea sofre de uma falta de sintonia entre os protagonistas interpretados por Priscila Fantin e Eduardo Moscovis. E como o autor Wlacyr Carrasco não pôde se sustentar no casal Serena e Rafael principalmente pela sofrível atuação de Eduardo Moscovis , a saída foi desviar o centro da ação para núcleos secundários na sinopse, mas prioritários para garantir a boa audiência da novela. Nesse desvio, quem ganhou espaço foi o núcleo da pensão a rigor, toda a vila em que se situa a pensão. Naquele microcosmo, Walcyr consegue explorar dramas e comédias com maestria. Além disso, tem chance utilizar um recurso cada vez mais comum em novelas, exatamente por ser agradável e familiar para quem vê: as reuniões informais em torno de uma mesa. As refeições se tornam uma oportunidade para explorar situações de união e discórdia com direito a disputas encarniçadas pelo último pedaço a mais de frango ou por mais um pastel. O convívio dos muitos personagens contribuem para movimentar a trama e dá aos atores momentos de brilho individual. E mesmo eventuais tropeços acabam sendo relevados. É o caso do robótico Rodrigo Phavanello. Até agora, depois de ultrapassados 100 capítulos, ele não se entendeu com seu personagem Roberval.
O contrário acontece com um casal de atores que esbanja sintonia. O bem-humorado romance entre Vitório e Olívia, vividos por Malvino Salvador e Drica Moraes, rendem excelentes cenas. O amor dos dois, no maior estilo entre tapas e beijos, consegue fugir do óbvio e açucarado romance titular da trama. Não é só pela história, mas as atuações e a veia cômica de Drica e Malvino os deixam ainda mais em evidência. Mesmo em destaque, eles dão espaço para quem está em volta brilhar, como Renan Ribeiro. O intérprete de Carlito está impagável como o garoto chato que não quer deixar a mãe namorar.
Já Mirna, personagem de Fernanda Souza, vem garantindo um espaço em Alma Gêmea, valorizado pela boa tabelinha com Emílio Orciollo Neto, que faz o irmão da moça, Crispim. O romance de Mirna com Jorge, vivido por Marcelo Faria, também tem garantido bons momentos, como o primeiro beijo da moça, repleto de ingenuidade. Walcyr Carrasco, aliás, sabe recorrer como ninguém à moral de época para carregar na tinta ao mexer com o ingênuo e retratar amores puros.
Quem também está chamando atenção na trama é Nívea Stelmann. Ao interpretar a insana Alexandra, subiu um degrau na carreira. Até então, a atriz ainda carregava o peso de ter estourado na tevê como a Eliete, a ganhadora do concurso Bumbum de Ouro, em Suave Veneno. Era então apenas mais uma carinha bonita. Agora está mostrando um talento bem mais palpável em especial nas crises enfrentadas por sua personagem. Todo o acerto também se deve à direção de Jorge Fernando, que conduz a novela de forma suave, onde as cenas mais chatas, como os encontros entre Cristina e Guto, personagens de Flávia Alessandra e Alexandre Barillari, passam rapidamente e quase não se nota o quanto elas são entediantes.
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