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bem sucedidos 24.12.2019 | 15h39

Funk ostentação: a brincadeira que virou fábrica de milionários

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Reprodução/R7

Reprodução/R7

Há cerca de dez anos, nem o mais entusiasmado funkeiro de São Paulo apostaria que o estilo feito no estado superaria o do Rio de Janeiro na mídia e no mercado. Mas aconteceu, contra todas as previsões.

 

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É nesse período que os MCs, produtores e bailes da capital e da Baixada Santista começaram a chamar atenção e fazer um sucesso nunca antes conseguido. E esse êxito veio por meio de uma mudança relevante, porém não planejada, nas letras das músicas. Desde os anos 90, os paulistas até gravavam funk também, mas letras críticas e engajadas com as do rap não deram a exposição que eles buscavam.

 

DJ Baphafinha, um dos pioneiros do estilo em São Paulo, afirma que o funk chegou na Baixada Santista bem antes, por volta de 1995, através de Lourival Fagundes, dono da gravadora Footloose.

 

Sem fazer nenhuma menção à ostentação naquela época, os MCs Jorginho e Daniel compuseram a primeira música de sucesso do funk paulista, chamada Fubanga Macumbeira. “A gente tinha que projetar os próprios bailes porque as casas noturnas não nos aceitavam tocando funk. Então foi uma coisa de contrariar as estatísticas mesmo. Peguei a fatia do bolo que ninguém queria naquela época. Resistir até hoje é uma coisa que me coloca como um cara vitorioso aos 42 anos”, analisa o DJ, que começou junto com o irmão, DJ Baphafa, já morto.

 

“Era uma vertente que todo mundo odiava e hoje se tornou um estilo que não pode deixar de ser tocado em lugar nenhum. Tocamos com artistas de sertanejo, MPB e com geral. A história mudou bastante sobre isso. Uma progressão grande. O preconceito ainda existe, sim. E muito. Mas vencemos vários obstáculos nesse meio”, garante.

 

A virada

Em meados de 2008 o funk começa a sair do underground, com alguns MCs da zona leste e cidades do litoral sul inventando, sem querer, o funk ostentação, que dava enfoque nos sonhos de consumo da juventude das periferias do estado.

 

Óculos Juliet, roupas da Oakley e Ecko, tênis esportivos, carrões, motos, bebidas caras, cordões de ouro e outros itens começaram a dominar as músicas a partir dali, o que trouxe resultados financeiros satisfatórios inclusive para esses esses mesmos músicos começarem a ter acesso a esses produtos.

 

É difícil traçar um marco zero do segmento, mas a música Bonde da Juju, da dupla Backdi e Bio G3 pode ser considerada a primeira música de sucesso a abordar esse estilo de vida.

 

Nela, os funkeiros da Cidade Tiradentes falam sobre os modelos de óculos de lentes espelhadas coloridas Juliet (apelidado aqui de Juju), Double Shox e Romeo 2, além das grifes esportivas Ecko, Nike e Oakley, e, claro, de uísque com energético.

 

“Bonde da Juju surgiu no fim de 2008, quando estávamos na Cidade Tiradentes com uns amigos. Todos estavam de Juliet no rosto, tomando uísque, vestindo Oakley. Tive a ideia ali. Depois, fiquei três meses só produzindo essa música. O sucesso veio”, explica Backdi, que não faz mais dupla com Bio G3 e hoje atua nos bastidores como produtor de funk.

 

“Ouvi rumores que, na época, a própria Oakley queria parar de vender os produtos dela no Brasil porque o funk se apropriou da marca e favelados começaram a usar. E, antes, era uma marca elitizada”, comenta o músico. A história, no entanto, foi apenas um boato do mundo do funk.

 

Mas é verdade que algumas marcas não gostaram mesmo dessa apropriação. Baphafinha lembra que MC Frank tentou pedir um patrocínio da Ecko, mas a marca não quis vincular o nome ao músico. Para ele, isso é uma demonstração de ignorância comercial. “O funk revolucionou também o consumo, porque ele dita moda e regras. Antes, só grandes artistas conseguiam vender produtos, como Roberto Carlos e Wando. Mas o funk chegou no patamar de dar vida a essa parte comercial. Mas tem outro lado. Falaram que funkeiro acabou com a marca Cyclone. Mas o funkeiro adotou a Cyclone como a marca que eles usam no Rio, por exemplo. Então é ignorância deixar de usar Calvin Klein, Armani ou a Ecko porque funkeiro usa. O MC Frank idolatrou a Ecko por muitos anos. E quando ele foi pedir patrocínio para a marca, não aceitaram e não gostaram. Não é a cara da marca, mas vendeu o triplo quando ele divulgou, né? Então, é muita ignorância, sabe? Funkeiro não ridiculariza produto. Eles gostam e fazem propaganda gratuita”, explica.

 

Um movimento sem volta

Deixar as letras mais conscientes de lado e explorar outros temas foi um caminho sem volta pro funk. A ostentação e, posteriormente, o funk ousadia (que fala sobre sexo) é o que garantiu ao estilo chegar a ser o segundo mais ouvido do Brasil em 2019, atrás apenas do sertanejo.

 

Mas não foi apenas a parte musical que influenciou nessa mudança de paradigma e consumo dos ouvintes. O funk paulista não seria o mesmo e nem teria atingido esse tamanho se não fossem os clipes que ilustram o que as letras exploram.

 

Foi por meio das grandes produções em vídeo que o funk paulista ficou cada vez mais estourado. E o primeiro diretor a apostar nisso foi Kondzilla, que viria se tornar no profissional mais requisitado do Brasil para produção de clipes na década de 2010.

 

O jovem de Santos teve o primeiro sucesso da carreira ao dirigir o clipe da música Megane, do MC Boy do Charmes. “Foi o primeiro clipe do Kondzilla que bombou. Ele tinha ganhado uma grana de herança da mãe e comprou equipamentos. Em Santos até tem morro para dar vista para umas cenas, mas preferimos gravar na Cidade Tiradentes, em SP. A galera foi chegando com as motos para fazer figuração, mas eu não tinha um tênis da hora, uma roupa bonita. Só que aí me emprestaram umas peças, ganhei tênis de uma loja próxima, me emprestaram uma corrente de ouro. A gente não tinha noção de que aquilo ia criar uma escola de clipes no funk. Lançamos no YouTube e atingiu 1 milhão de visualizações, numa época quase sem celular e sem banda larga. Em pouco tempo, eu tava fazendo sete bailes na noite”, recorda Boy do Charmes, que ainda precisou continuar a trabalhar como pedreiro por mais um ano até que o sucesso garantisse a ele cachês de R$ 1 mil por baile.

 

“Eu queria tirar a minha família do barraco em cima da lama. Lá a gente tinha que conviver com rato e cobra. Maior que o perigo do crime, era o de doença, sujeira, lama do canal. E eu sabia que não podia contar com ninguém. Foi acontecendo, mas eu não via dinheiro, porque primeiro eu investia para depois colher os frutos. Em meados de 2011, comecei a levantar grana. Pedi minhas contas e comecei a viver do funk. Foi então que comecei a reformar a casa da minha mãe. Logo que eu estourei, perdi meu pai, que era alcóolatra. E a responsabilidade aumentou. E para mim foi um baque. Eu tinha o sucesso, mas também uma derrota. Ele era meu companheiro, trabalhava junto comigo como pedreiro”, recorda o MC.

 

Grana e problemas

MC Lon, que pode ser considerado o primeiro ídolo do funk ostentação, também deixou um emprego comum para viver de funk. Antes da fama, ele cortava cabelos na garagem de casa, na Praia Grande.

 

Em 2012, quando estourou a música Novinha Chora, ele viu os convites para bailes aumentar e precisou decidir que rumo tomaria a partir dali. Com a grana do funk superando e muito a do salão, ele não precisou pensar muito sobre o que faria a partir de então.

 

Mas não sem antes tomar uma atitude que valorizou o passe dos funkeiros: passar a pedir mais que os humildes R$ 500 ou R$ 1 mil por baile que eles ganhavam até então. “Eu não era cantor, era cabeleireiro. E queria fazer que o cachê fosse maior para nós. Comecei a achar que devíamos pedir R$ 10 mil, 8, 5 mil. Depois que estourei Novinha Chora, acreditei que não podíamos mais ficar naquele patamar de ganhos. Teve quem reclamou por eu ter feito isso, mas depois todo mundo começou a ganhar mais também. Lembro que, na época, fui convidado para tocar no Playcenter e realizei o sonho de ir ao parque, coisa que eu sempre quis na minha infância e não pude, porque meu pai não podia pagar. E depois tudo cresceu.

 

Fechei o salão, comprei carro, moto, jet ski. Minha música tocou no Faustão, na Record, fui o primeiro a ser convidado pelo YouTube para tocar numa festa da empresa. E todo mundo passou a ganhar mais também”, recorda.

 

A agenda de shows de Lon vai bem: em 2019, ele realizou 460 bailes (número normal porque, no funk, é possível realizar mais de um show por noite).

 

Sonhos de consumo

Se hoje nomes como Kevinho conseguem R$ 150 mil de cachê, não é tão fácil assim para todos os artistas que foram pioneiros do funk. Alguns ainda buscam o primeiro milhão, mas muitos conseguiram romper com o passado de pobreza e miséria da infância e adolescência.

 

MC Lon diz que parte do que ganhou até hoje foi investido em imóveis e em bens pessoais, como carros e até lancha. “Minha mãe já tinha uma casa lá na Praia Grande. Gastei um milhão numa casa para mim lá, mas hoje moro em São Paulo. Tenho lancha também. Eu via os traficantes e empresários da comunidade e queria ter um cordão de ouro grosso de um quilo com os que eles usavam. E consegui. Já tive até Lamborghini que comprei junto com o Guimê, que foi um cara que eu empresariei e estourou logo depois de mim. Nós morávamos juntos e cada um ia ficar uma semana com ela. Só que ele queria ficar toda semana. E aí não deu certo e vendemos”, recorda.

 

MC Boy dos Charmes também lembra com carinho dos sonhos que conquistou desde que o funk deu certo na vida dele. 

 

“Comprei minha primeira moto, que foi uma XRE. Eu tive outras antes, que foram tomadas pelo banco porque eu nem pude pagar. Depois comprei um Punto da mão do Rodrigo, dono aqui da GR6 Produtora. Dei 15 mil e mais 30 datas para ele e peguei o carro dos sonhos. Também comprei um sobrado na frente da minha favela, só que lá ninguém pode ter carro e casa bons porque você é visto como traficante. Então tive que sair. Eu posso viver do funk, mas tenho que carregar o amor por ele. Para se tornar uma profissão, você tem que amar. Não pode estar só pelo oportunismo. É que nem casamento. Só dura se você amar”, lamenta.

 

Neguinho do Kaxeta, que atuou tanto na fase do funk consciente como na era da ostentação e atualmente aderiu ao estilo acústico, diz que, apesar dessas conquistas materiais, ainda existe muito para atingir. “Eu demorei demais para conseguir comprar um carro. Eu era um MC antigo quando a ostentação estourou, mas lá no começo eu não era bem remunerado, não.

 

No começo, o mais alto cachê era R$ 2 mil. Então tem gente que acha que eu fiquei rico, mas as coisas são mais difíceis do que se imagina”, garante ele.

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