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Reparações históricas 31.03.2026 | 15h56

Longa da UFF vai investigar a repercussão da escravidão no Brasil e no mundo; veja

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TOMAZ SILVA/AGÊNCIA BRASIL

TOMAZ SILVA/AGÊNCIA BRASIL

Um documentário de longa-metragem em fase de pré-produção promete lançar luz sobre como a escravidão ainda estrutura desigualdades sociais, econômicas e políticas no Brasil contemporâneo.

 

Desenvolvido pela Universidade Federal Fluminense (UFF), o projeto reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros em uma investigação que conecta passado e presente a partir de uma perspectiva transnacional.

 

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A produção integra um amplo projeto internacional financiado pelo governo britânico, que envolve instituições acadêmicas de vários países, como a University of Bristol, universidades em Gana e na Dominica, além da parceria com o’’ Cultne’’, organização brasileira dedicada à preservação da memória audiovisual da cultura negra.

 

À frente do roteiro e da produção no Brasil está a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, professora do Departamento de História da UFF. Em entrevista à Agência Brasil, ela explica que o filme nasce de uma pesquisa mais ampla sobre reparações históricas da escravidão em diferentes territórios.

 

“A ideia é pensar não só as reverberações da escravidão atlântica de maneira comparada e conectada, mas sobretudo entender como os processos de reparação vêm sendo construídos nesses países”, afirma.

 

No Brasil, o documentário terá como eixo central a região da Pequena África, no Rio de Janeiro, especialmente o Cais do Valongo que é reconhecido como o maior porto de entrada de africanos escravizados nas Américas.


Segundo a pesquisadora, o território é simbólico não apenas pela dimensão histórica, mas também pelas lutas contemporâneas de moradores, ativistas e pesquisadores: “É um território muito emblemático. A ideia é pensar as reparações possíveis a partir das narrativas e das lutas sociais construídas ali”, explica.

 

O projeto também contará com a participação do Instituto Pretos Novos, que atua na preservação da memória de africanos escravizados a partir de vestígios arqueológicos encontrados na região.

 

Para Ynaê Lopes, o documentário parte de uma questão urgente: compreender como estruturas criadas durante a escravidão permanecem ativas na sociedade brasileira.

 

“Nós temos a manutenção de uma desigualdade que foi criada durante a escravidão e que não foi resolvida ao longo de mais de 130 anos de República”, afirma.

 

A proposta é revelar o funcionamento do racismo a partir da experiência histórica da população negra, evidenciando impactos que atravessam diferentes dimensões da vida social.

 

“Existe uma desigualdade abissal entre a população branca e a população negra. E discutir reparação não é apenas sobre a população negra — é sobre o país inteiro,” destaca Ynaê.

 

O documentário brasileiro fará parte de uma série de produções realizadas em diversos países, cada uma abordando a escravidão a partir de seu território, mas em diálogo com as demais.

 

A escolha dos países parceiros - Brasil, Inglaterra, Gana e Dominica - busca refletir as múltiplas dimensões do sistema escravista atlântico: “A Inglaterra foi o país que mais traficou africanos escravizados e também um dos primeiros a liderar o movimento abolicionista. Hoje, participa desse debate reconhecendo sua responsabilidade histórica”, assinala a historiadora.

 

Além do longa, o projeto prevê a produção de conteúdos audiovisuais curtos para uso educacional, alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e às leis que determinam o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas.

 

A iniciativa também aposta no audiovisual como ferramenta de democratização do conhecimento acadêmico: “A universidade pública produz conhecimento de qualidade. O desafio é transformar isso em uma linguagem que dialogue com o público mais amplo”, afirma Ynaê.


Segundo ela, o filme pretende equilibrar rigor histórico e acessibilidade, valorizando o protagonismo de lideranças negras, pesquisadores e moradores da região.

 

“A ideia é fazer um bom uso do audiovisual, criando conexões, emoções e trazendo protagonismo para quem sempre esteve à frente dessa luta,” diz a historiadora.

 

Ainda sem título definido, o documentário deve ser concluído até o fim de 2027. A equipe avalia, inclusive, a possibilidade de desdobrar o projeto em uma série, diante da complexidade do tema.

 

Mais do que revisitar o passado, a proposta é provocar o presente: “Falar de reparação é falar de um problema atual. É uma discussão que tem o tamanho da história do Brasil e que precisa ser enfrentada”, conclui Ynaê.

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