18.02.2026 | 11h42
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A limpeza corporal, doméstica e pública constitui não apenas um conjunto coletiva, da qualidade de vida e da justiça social. Inúmeras doenças são provocadas pela falta de limpeza, a começar pela higiene do próprio corpo, desde A o ato de de práticas individuais de higiene, mas três dimensões estruturantes da saúde lavar as mãos com frequência até os banhos diários e os cuidados com as roupas.
Contudo, tais práticas não dependem exclusivamente da vontade individual. Sem acesso universal à água tratada e potável nas residências, a higiene cotidiana torna-se um privilégio, e não um direito. A ausência desse acesso revela desigualdades estruturais historicamente produzidas no Brasil.
Além da limpeza do próprio corpo, precisamos estar atentos à importância de manter nossas casas, quintais e áreas próximas sempre limpos, evitando o acúmulo de lixo doméstico, restos de alimentos e móveis velhos que atraem insetos (moscas, baratas), roedores, animais peçonhentos (como escorpiões) e também microrganismos invisíveis a olho nu — fungos, bactérias e vírus — responsáveis por inúmeras doenças e sofrimento humano.
Segundo dados recentes do Instituto Trata Brasil, cerca de 33 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável. No que se refere ao esgotamento sanitário, apenas aproximadamente 62,5% da população estava conectada à rede de coleta de esgoto em 2022, conforme o Censo do IBGE, o que significa que milhões de pessoas vivem expostas a condições sanitárias inadequadas.
Fruto desse quadro socioambiental, milhões de pessoas adoecem anualmente por doenças evitáveis relacionadas à falta de saneamento básico. Trata-se de uma crise que não é apenas sanitária, mas profundamente social e política.
Tanto a limpeza corporal quanto a doméstica precisam estar inseridas em um contexto de serviços públicos essenciais: água potável e tratada, coleta regular de resíduos sólidos, saneamento básico (coleta e tratamento de esgoto), drenagem urbana e políticas adequadas de uso e ocupação do solo.
Apesar da aprovação da Lei nº 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos) e do Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020), a situação brasileira permanece crítica. A existência de milhares de lixões a céu aberto — ainda presentes em cerca de um terço dos municípios brasileiros — demonstra a distância entre legislação e realidade.
Mais de 18 milhões de moradias não contam com coleta adequada de resíduos sólidos; mais de 90 milhões de brasileiros não têm acesso pleno à coleta e tratamento de esgoto. Esses números evidenciam que a precariedade do saneamento atinge de forma desproporcional populações negras, indígenas, periféricas e comunidades tradicionais, revelando uma dimensão racial e territorial da desigualdade.
Outro aspecto importante é a limpeza pública — ruas, praças, avenidas e calçadas frequentemente acumulam lixo, entopem bueiros e transformam córregos em esgoto a céu aberto. Terrenos baldios e áreas desocupadas, repletos de resíduos, contribuem não apenas para a degradação paisagística, mas para a proliferação de doenças.
Do ponto de vista sociológico crítico, é fundamental evitar a responsabilização exclusiva dos indivíduos por problemas que são estruturais. A cultura contemporânea tende a moralizar a sujeira, mas ignora que a ausência de infraestrutura pública adequada limita qualquer prática de higiene doméstica.
O rápido crescimento urbano brasileiro — com cerca de 90% da população vivendo hoje em áreas urbanas — ampliou desigualdades territoriais e déficits de saneamento, especialmente nas periferias e ocupações irregulares.
Nessas condições, a limpeza doméstica deixa de ser apenas um ato de higiene e torna-se um ato de resistência cotidiana e de afirmação da dignidade humana.
Como enfatizou o Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, “tudo está interligado” na Casa Comum. A crise ambiental não pode ser dissociada da crise social. Não existe degradação ambiental neutra: seus impactos recaem principalmente sobre os mais pobres.
É nesse contexto que se insere a Campanha da Fraternidade 2026, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com o tema “Fraternidade e Moradia Popular e Digna” e o lema “Ele veio habitar entre nós”.
A proposta da Campanha dialoga diretamente com a necessidade de compreender a moradia digna não apenas como abrigo físico, mas como espaço dotado de saneamento básico, acesso à água, infraestrutura urbana e condições ambientais adequadas. Morar com dignidade é morar com saneamento, saúde e segurança ambiental.
A mensagem do Papa Francisco aos Movimentos Populares em 2014 no início de seu pontificado, a luta por Terra, Teto e Trabalho, seus famosos tres “Ts”, permanecem ainda válidos no Brasil neste ano de 2026.
Oxalá essa campanha frutifique na organização das comunidades e no fortalecimento da Pastoral da Moradia e Favela, não apenas durante a Quaresma, mas ao longo de todo o ano, contribuindo para a construção de um Brasil mais justo, sustentável, solidário e fraterno.
Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, mestre em sociologia, ambientalista
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