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24.02.2025 | 10h56

A taxonomia sustentável brasileira; entre a realidade e a imposição internacional

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Luís Eduardo Pacifici

Divulgação

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A discussão sobre a sustentabilidade na agropecuária brasileira tem ganhado relevância, especialmente com a proposta da Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB). A ideia de classificar atividades econômicas conforme seu impacto ambiental e social pode ser um instrumento poderoso para guiar investimentos sustentáveis. No entanto, a abordagem adotada levanta preocupações, pois pode criar barreiras excessivas ao setor agropecuário, que já opera sob uma legislação ambiental rigorosa, como o Código Florestal.

 

Essa proposta está em consulta pública pelo Governo Federal até 31 de março de 2025 e precisa de uma leitura atenta e contribuições qualificadas do setor agropecuário. A Câmara Temática do Agro Carbono do MAPA, desenvolve um trabalho de acompanhamento dessa proposta.

 

A necessidade de uma taxonomia sustentável é inquestionável, mas seu desenvolvimento deve considerar as especificidades do Brasil. Importar modelos internacionais sem adaptação pode resultar em prejuízos econômicos e produtivos para o país. Um dos principais problemas da abordagem atual é o risco de uma definição restritiva de sustentabilidade, que exclua sistemas produtivos que têm grande impacto positivo na redução das emissões de gases de efeito estufa e na conservação dos solos, mas que não atendam a critérios estritamente normativos da TSB.

 

O Papel da Agropecuária na Economia e Sustentabilidade

O setor agropecuário é um dos pilares da economia brasileira, representando cerca de 24% do PIB e empregando aproximadamente 28,6 milhões de pessoas. Além disso, o Brasil é um dos líderes globais na produção sustentável de alimentos, com práticas como o plantio direto, a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e a utilização crescente de bioinsumos. Qualquer proposta de financiamento e incentivo baseada na sustentabilidade deve priorizar não apenas os aspectos ambientais, mas também a segurança alimentar e a geração de emprego e renda no campo.

 

Por outro lado, a definição da sustentabilidade baseada apenas em padrões internacionais pode marginalizar a realidade da produção brasileira. A TSB, por exemplo, se baseia em critérios que podem penalizar produções tradicionais e de pequeno porte que ainda não conseguiram incorporar todos os padrões exigidos. Isso pode levar a uma exclusão financeira desses produtores, limitando o acesso ao crédito e a incentivos fundamentais para a modernização do setor.

 

Insegurança Jurídica e Impactos no Financiamento

Um dos pontos mais críticos da TSB é a restrição ao financiamento de atividades agropecuárias que envolvem qualquer tipo de supressão de vegetação nativa, mesmo que dentro dos limites legais do Código Florestal. O Brasil já possui uma das legislações ambientais mais restritivas do mundo, exigindo a manutenção de reservas legais e áreas de preservação permanente. Criar barreiras além das já existentes pode gerar insegurança jurídica e dificultar ainda mais o acesso a crédito para os produtores.

 

Essa abordagem ignora o princípio de transição sustentável, que deve levar em consideração não apenas critérios ambientais, mas também aspectos socioeconômicos. A inclusão de atividades de recuperação ambiental e incentivos para a adoção progressiva de práticas mais sustentáveis seriam soluções mais adequadas do que simples vedações ao financiamento.

 

A Importância da Interoperabilidade e da Adaptação Nacional

Outro desafio da TSB é sua harmonização com outras taxonomias internacionais. A Europa, por exemplo, tem adotado critérios específicos baseados em sua realidade, o que nem sempre se aplica ao Brasil. O modelo europeu de sustentabilidade é voltado para uma agricultura de pequena escala e altamente subsidiada, enquanto o Brasil opera em um contexto de grande extensão territorial, alta produtividade e necessidade de inovação tecnológica para reduzir impactos ambientais.

 

A busca por uma taxonomia que possa dialogar com padrões internacionais é positiva, mas isso não pode significar a imposição de regras que desconsiderem as especificidades nacionais. O Brasil tem condições de desenvolver uma taxonomia sustentável própria, alinhada à sua legislação e realidade econômica, e que ao mesmo tempo seja reconhecida globalmente. Essa abordagem garantiria que o país continue atraindo investimentos e fortalecendo seu papel como líder em produção agropecuária sustentável.

 

Conclusão: Sustentabilidade com Pragmatismo

A construção de uma taxonomia sustentável para o Brasil é um passo essencial para consolidar o país como protagonista no desenvolvimento sustentável global. No entanto, essa construção precisa ser feita com base na realidade brasileira, e não em imposições externas que podem comprometer a produtividade e a segurança alimentar.

 

Ao invés de adotar uma abordagem excludente, a TSB deve priorizar mecanismos de transição sustentável, permitindo que produtores de diferentes portes e regiões possam se adaptar progressivamente a padrões ambientais mais rigorosos. Para isso, é fundamental garantir segurança jurídica, acesso ao financiamento e incentivos para a adoção de práticas sustentáveis.

 

Sustentabilidade não pode ser sinônimo de exclusão econômica. Para que a TSB seja bem-sucedida, ela precisa ser um instrumento de inclusão e de desenvolvimento, garantindo que a produção agropecuária brasileira continue sendo uma referência global em eficiência e responsabilidade ambiental.

Luís Eduardo Pacifici Rangel é conselheiro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Engenheiro Agrônomo, Ex-Secretário de Defesa Agropecuária e Ex-Diretor de Análise Econômica e Políticas Públicas do MAPA


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Comentários

erico de mello campos - 25/02/2025

Parabéns pela escolha de tema e teor. Aproveito a oportunidade para comentar para pessoa qualificada capaz de entender os argumentos. Fala-se muito em sustentabilidade, merecidamente. O povo em geral, até jornalistas, não sabem que uma área de cultivo antiga vale muito mais que uma recente, pois os agricultores conservam o solo, enriquecem com matéria orgânica, entre outros fatores, o que contraria a teoria de degradação progressiva. Quanto à taxonomia, excelente alvo para chamarmos a discussão sobre a conservação de variedades de espécies cultivadas e em especial as que não são de cultivo. A maioria da população nunca viu uma manga-abóbora, uma laranja sangue de boi, variedades de arroz especialmente saborosas que os antigos cultivavam, entre inúmeros outros casos. Conservar faixas dentro das propriedades (ou até alguns parques de pequeno porte) não preserva espécies cobiçadas pela população especialmente pelo valor medicinal. O mesmo vale para espécies animais. Fala-se muito em riqueza de biodiversidade do Brasil mas pouco se investe em preservá-la além da proibição e fiscalização. Gostaria de ver o assunto taxonomia realmente em pauta, de forma ampla.

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