28.05.2018 | 00h00
A palavra patriotismo, do grego patriotes, significa patrício, ou seja, aquele que tem atitudes nobres e distintas. Na Roma antiga o termo se referia aos membros da classe nobre, atualmente, patriota é a pessoa que ama seu país e procura servi-lo da melhor forma possível. Mas diante de um quadro tão avassalador de corrupção nas mais diversas esferas de Poder, e revelados em grande medida pela Operação Lava Jato, ainda restaria entre os brasileiros força e vontade para servir à nação? Quais seriam os efeitos da atual crise moral-política sobre o sentimento de amor e pertencimento à pátria brasileira?
O enriquecimento ilícito, a deterioração do ambiente de negócios, a instabilidade da administração pública, o enfraquecimento dos programas sociais e o empobrecimento do Estado são as consequências mais destacadas da corrupção. Há, todavia, outros efeitos que começam a ser percebidos entre os brasileiros. Segundo dados da Receita Federal, nos últimos sete anos o número de pessoas que optaram por deixar o Brasil para viver em outro país cresceu 165%. A decisão de migrar está ligada à insatisfação com o país, não somente em razão do quadro econômico desanimador, mas porque hoje o Brasil é efetivamente reconhecido como um lugar muito injusto com quem trabalha e empreende honestamente.
Essa descrença generalizada da população em relação a classe política parece abrir espaço para sentimentos de revolta, que estariam tomando a forma de manifestações antipatrióticas. O patriotismo, segundo Miguel Reale, significa dedicação e orientação das forças do espírito para o bem-estar nacional. O jurista considera que patriotismo e cidadania são valores próximos, e não é verdadeiramente um patriota quem fecha bondosamente os olhos ante comportamentos impróprios de políticos ou de membros da sociedade. Como o patriotismo pressupõe uma cultura de identificação com os símbolos e valores nacionais, no atual momento, muitos brasileiros estão deixando o país em razão da dificuldade de se reconhecerem como integrantes dessa realidade nacional, marcada pelo signo da corrupção. O esmorecimento do sentimento patriótico, no entanto, é muito prejudicial e tem como consequência direta o descrédito popular em relação ao regime democrático. Ademais, o declínio da ideia de pátria - um conceito fortemente agregador - provoca uma força centrífuga que dispersa os esforços da nação em construir uma sociedade mais justa, livre e solidária.
Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, na modernidade líquida em que vivemos, ao passo que os valores éticos, morais e espirituais vão se desfazendo, emergem o egoísmo, a ganância e o individualismo apátrida. Mas mesmo diante de tanto abatimento, o momento histórico no Brasil é propicio, pois há espaço para uma vigorosa inflexão. Educação moral e civismo já não podem mais ser confundidos com expressões de autoritarismo. Representam conceitos basilares para a convivência em sociedade e valores que devem ser transmitidos de forma equilibrada a todas crianças brasileiras. O orgulho nacional é um alento e suscita uma certa esperança no amanhã. Significa para os países o que a autoestima é para os indivíduos, um elemento importante para o aperfeiçoamento que conduz à superação.
Daniel Almeida de Macedo é doutor em História Social pela USP e escreve neste espaço às segundas-feiras. Contato: danielalmeidademacedo@gmail.com
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