20.02.2017 | 00h00
O maniqueísmo foi uma doutrina religiosa pregada pelo filósofo Maniqueu no início do século III da era cristã. Sua principal característica é a concepção dualista do mundo como fusão de espírito e matéria, que representariam respectivamente o bem e o mal. O maniqueísmo agora está em alta na sociedade brasileira que encontra-se dividida em dois segmentos, aquele do qual fazem parte pessoas que pensam como nós, que somos bons e inteligentes, e o outro, que reúne a outra parte da população que pensa diferente de nós, e que são maus e ignorantes. De forma súbita o conjunto da sociedade brasileira dividiu-se e de um lado ficaram os fascistas e do outro os comunistas, simples assim. Esse desequilíbrio dinâmico que passou a caracterizar a sociedade brasileira desde o final de 2014 tem afetado as relações interpessoais, influenciando aspectos que estão muito além do debate político.
A fissura social causada pelo maniqueísmo ideológico fere vínculos de amizade existentes e prejudica a construção de prováveis amizades, afronta ou ofende dignidades, causa tumultos e perturbações variadas, mas, sobretudo, contribui muito para a edificação de muros imaginários internos que se fecham para a alteridade e para as incríveis possibilidades de descoberta e conhecimento.
Ao permitir que o debate político, que é a discussão sobre o próprio futuro da nação, seja pautado por premissas medíocres e pretensiosas, torna-se também cada vez mais distante a possibilidade de se formular soluções verdadeiramente efetivas para os enormes problemas que desafiam o povo brasileiro. Isto porque o maniqueísmo é uma forma simplista e dogmática de pensar o mundo, reduz os fenômenos humanos a uma mera relação de causa e efeito, certo e errado, isso ou aquilo. A simplificação é uma tática para viabilizar o julgamento apressado, que não é fruto da reflexão e não é precedido por um processo de auto confrontação que considera a realidade do outro. É uma forma obtusa e indolente de se pensar sobre uma questão complexa ou de difícil solução. Em muitos casos, o maniqueísmo ainda é utilizado como uma perversa estratégia para se obter vantagens e manipular a opinião pública.
Durante o governo nazista, as crianças alemãs eram instruídas para estigmatizar os judeus com representações e histórias que os associavam ao mal ou ao diabo. No período da Guerra Fria, o presidente norte-americano Ronald Reagan fazia pronunciamentos relacionando os soviéticos como a encarnação do demônio. Depois, George W. Bush criou o conceito de "eixo do mal" para pautar sua política de intervenções militares. Na doutrina militar de Bush o ex-presidente iraquiano Saddam Husseim era identificado como a personificação do mal. De forma equivalente, os fundamentalistas islâmicos também fazem uso do mesmo maniqueísmo com os norte-americanos, chamando-os de "grande Satã" e Israel de "pequeno Satã". Essa estratégia perversa de dominação que insufla medo e ódio no povo foi extremamente nociva nos contextos em que foi adotada;quando instilada, gera resultados desastrosos pois extrai o que existe de pior no ser humano.
Em razão de seu dogmatismo o maniqueísmo não é sustentável por muito tempo, ou seja, as verdades simplificadas sobre as quais se sustenta não são suficientes para a formulação de soluções sobre os grandes temas que se apresentam na pós-modernidade. Na essência, não são mais que discursos vazios. Ademais, o próprio conceito tradicional de esquerda e direita, ou conservadores e progressistas já não abarca os vários matizes ideológicos do mundo líquido dos dias de hoje. Haverá inevitáveis pontos de encontro ou encontrões, convergências e divergências, aproximações e distanciamentos entre os polos do espectro político. Esconder-se em uma trincheira ideológica pode ser interessante apenas como plataforma político-eleitoral, mas seguramente não cria as pontes necessárias para a coexistência em uma sociedade mais livre e solidária
Daniel Almeida de Macedo é doutor em História Social pela USP
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Delmario - 09/07/2021
Ótimo texto !!
1 comentários