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Cuiabá, Segunda-feira 18/05/2026

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18.05.2026 | 11h24

Mas, por que?

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Roberta D'Albuquerque

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Caramujo. Chamava-se Caramujo. Por quê? É o que todo mundo perguntava, mesmo antes de Caramujo aprender a falar. Já na creche, quando a mãe se afastava, uma babá olhava para a outra e: “Mas, por quê?”. Foi piorando na época da escola porque, além do nome, havia o sobrenome: Caramujo Araújo. Acrescentar um “Sujo” entre uma coisa e outra era o mínimo que faziam as crianças. As crianças publicamente e os adultos todos aos sussurros, desde a sala dos professores até os grupinhos de mães nas festas de aniversário: “Mas, por quê?”.

 

Sujo? Não era não. Nem ele nem o molusco, que usa o muco secretado para remover impurezas. Agora, não sei se por causa do nome, ou até pensando em outro aspecto, mas também exatamente por causa do nome, vivia meio recolhido na própria casa.

 

Não era a rima nem o fato de ter nome de animal que perturbavam Caramujo. Ele também perguntou por que, claro. A mãe disse que fora escolha do pai, ele amava o som das sílabas “ca” e “ra” quando juntas. Certo, mas Karan, tipo Guilherme Karan, resolveria, não? Não, tinha que ser com “C”. E Carlos, Carlito, Caru, até Carino? Não, tinha que ter um “A” depois do “R”. Ainda assim. Se fosse pra escolher um bicho, não dava pra ser caracol, caranguejo, carancho, carapau, caracu? Por que especificamente caramujo? Talvez o "mujo" pra rimar com Araújo? Mas aí Sabujo resolveria, não? — Tu queria ter nome de cachorro, menino?, a mãe já ríspida no cansaço do questionário.

 

Queria. Melhor ter nome de farejador competente do que de fabricador de muco, introspectivo e indesejado. Só sei que seguiu ouvindo gracinha pela vida até que um dia, na sala de medicação do PS do Samaritano, se pegou já desafetado quando, pela enésima vez: “Mas, por quê?”. Era a enfermeira que lhe aplicaria o Buscopan na veia (pedras nos rins). Murmurou qualquer coisa e lhe ofereceu o braço.

 

O Buscopan entrando no soro e o alívio tomando conta do corpo todo do homem já pra lá dos 50. Na poltrona do lado, também de veia ligada a soro e remédio, lhe lançou um olhar compadecido uma moça tão bonita quanto poderia ser. Também perto dos 50. Ele tentando baixar a vista e ela ali, segurando os olhos dele com os seus. “Te entendo”, disse baixinho. Conversa vai, conversa vem, Sal e Caramujo casaram-se menos de um ano depois. Tão amorosos juntos. As pedras nunca voltaram. Nem as dele, nem as dela.

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br

 

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