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29.09.2026 | 11h10

O emagrecimento não começa na balança

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Helton Palaoro

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“Eu sei exatamente o que preciso fazer para emagrecer, mas não consigo manter.” Escuto essa frase com frequência. Ela revela uma falha na maneira como ainda tratamos o emagrecimento: oferecemos informação e cobramos disciplina, sem compreender o que impede aquela mulher de sustentar as mudanças.

 

A própria ciência começa a ampliar esse olhar. Em 2025, uma comissão global formada por especialistas em saúde e obesidade, com o apoio de organizações médicas internacionais, publicou na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology uma proposta para reformular o diagnóstico da doença.

 

O estudo recomenda que a obesidade não seja avaliada apenas pelo Índice de Massa Corporal (IMC), mas também pela distribuição da gordura corporal, pelo funcionamento do organismo e pelas limitações que a condição provoca na vida de cada pessoa.

 

Se o peso já não deve ser analisado isoladamente pela medicina, também não faz sentido reduzir o emagrecimento a uma conta entre alimentação, exercício e força de vontade.

 

Uma mulher pode conhecer os alimentos que deveria consumir, saber que precisa treinar e entender a importância do sono. Ainda assim, pode não conseguir manter essas escolhas. Isso não significa, necessariamente, preguiça ou falta de comprometimento. Entre saber e conseguir fazer existem emoções, experiências e padrões de comportamento.

 

Quando alguém come excessivamente depois de um dia difícil, podemos apenas dizer que “saiu da dieta”? Como personal trainer e terapeuta, aprendi a fazer outra pergunta: o que aquele alimento representou naquele momento? Conforto, recompensa ou uma tentativa de aliviar ansiedade, estresse e frustração?

 

Uma revisão científica que reuniu 46 intervenções voltadas à alimentação emocional identificou resultados positivos na redução desse comportamento e uma contribuição, ainda que pequena, para a perda de peso. Isso não significa atribuir todo excesso de peso às emoções, mas reconhecer que determinados comportamentos precisam ser compreendidos antes de serem cobrados.

 

O mesmo vale para o exercício. Algumas mulheres chegam à academia querendo “pagar” pelo que comeram. Pedem mais intensidade, ignoram o cansaço e transformam o treino em punição. Quando o exercício deixa de ser cuidado e se torna castigo, aumentar a carga nem sempre é a resposta.

 

Foi essa percepção que mudou minha forma de trabalhar. Antes de olhar somente para séries, repetições e medidas, procuro entender quem chegou para treinar. Como essa mulher dormiu? Como está sua disposição? Ela busca saúde ou tenta compensar uma refeição? Está cuidando do corpo ou brigando com ele?

 

O treino continua sendo técnico. A formação terapêutica não substitui a prescrição de exercícios, mas amplia minha capacidade de escutar, identificar padrões e adaptar a condução. Há dias de avançar. Em outros, reduzir a intensidade, modificar a atividade ou conversar por alguns minutos pode ser mais responsável do que exigir desempenho a qualquer custo.

 

Adaptar é inteligência de treinamento. Esse olhar também exige limites. Não cabe ao personal trainer diagnosticar transtornos mentais, conduzir psicoterapia ou substituir psicólogos, nutricionistas e médicos. Cabe observar, acolher sinais e encaminhar quando a situação ultrapassa sua competência. O trabalho multidisciplinar não diminui nenhum profissional; ele protege a pessoa atendida.

 

O maior desafio do emagrecimento, muitas vezes, não é começar. É continuar quando o trabalho aperta, os filhos exigem atenção, a ansiedade aparece ou a balança não responde como o esperado.

 

Por isso, talvez seja necessário trocar a pergunta “por que você não consegue emagrecer?” por “o que está dificultando a manutenção dos comportamentos que você já sabe que precisa ter?”.

 

A primeira cobra. A segunda procura compreender. O emagrecimento sustentável não deveria ser construído sobre punição, culpa ou uma guerra contra o próprio corpo. Ele precisa reunir movimento, consciência, comportamento e cuidado. Porque, antes de prescrever para um corpo, é necessário enxergar a pessoa que existe por trás dele.

 

Helton Palaoro é bacharel em Educação Física, personal trainer há dez anos e terapeuta com formação em Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG). Possui especializações em treinamento feminino e emagrecimento comportamental e emocional.

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