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14.04.2026 | 08h47

O incômodo da inclusão

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Joel Mesquita

Reprodução

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Há, no caso brasileiro, uma contradição estrutural que exige ser tratada não apenas como fenômeno opinativo, mas como expressão concreta de relações sociais historicamente constituídas. A resistência difusa à ideia de justiça social não se reduz à esfera da divergência política: ela se inscreve no plano das disposições incorporadas, operando como um reflexo socialmente produzido.

 

Como assinala Pierre Bourdieu, trata-se de um habitus — um sistema de esquemas duráveis que orienta percepções e práticas — moldado por estruturas que naturalizam a desigualdade e convertem hierarquias em evidências aparentemente incontestáveis.

 

Nesse sentido, o incômodo diante da presença de sujeitos historicamente excluídos em espaços como aeroportos não pode ser lido como mero preconceito episódico, mas como perturbação da ordem simbólica. O aeroporto, longe de ser um espaço neutro de circulação, constitui-se como território de distinção, onde capitais econômicos e culturais se tornam visíveis e operantes.

 

Quando o “outro” atravessa esse espaço, não há apenas deslocamento físico, mas uma fissura no regime de classificações sociais. É precisamente nesse ponto que se evidencia o que Bourdieu denomina poder simbólico: a capacidade de impor como legítima uma determinada visão de mundo.

 

Quando essa visão é tensionada, emerge o desconforto — não como exceção, mas como sintoma. Como sugeriria Fernando Pessoa, ainda que por vias literárias, o mal-estar não reside no objeto, mas na revelação que ele produz. A presença do pobre no aeroporto não é, portanto, um fato isolado, mas a materialização de uma possibilidade histórica: a mobilidade social. E é justamente essa possibilidade que desestabiliza aqueles cuja percepção do mundo foi estruturada pela crença na fixidez das posições sociais.

 

No mesmo registro, a rejeição a políticas redistributivas — como o Bolsa Família — evidencia uma seletividade moral que não pode ser compreendida fora da lógica da dominação simbólica. A crítica não se dirige à magnitude dos recursos, mas à legitimidade de seus destinatários. Enquanto isso, mecanismos de concentração de renda — como isenções fiscais e privilégios institucionais — permanecem amplamente naturalizados.

 

Aqui opera, com nitidez, a noção de violência simbólica formulada por Pierre Bourdieu: uma forma de dominação que se exerce com a cumplicidade dos próprios dominados, na medida em que internalizam os critérios que os desvalorizam. A observação de José Saramago — de que a injustiça, quando prolongada, se converte em paisagem — ganha, nesse contexto, densidade sociológica.

 

A naturalização da desigualdade não é um acidente, mas o resultado de processos históricos que sedimentam percepções e limitam o horizonte do pensável. A injustiça deixa de ser percebida como ruptura e passa a operar como norma.

 

Nesse quadro, o apoio de parcelas populares a representantes das elites econômicas não pode ser reduzido a erro ou alienação simplista. Trata-se de um fenômeno mediado por estruturas simbólicas que produzem identificação, aspiração e reconhecimento.

 

Vota-se, frequentemente, não a partir da posição objetiva ocupada, mas da posição imaginada como desejável. É o que se pode interpretar, à luz de Bourdieu, como a prevalência do simbólico sobre o material: a adesão a uma ordem que se apresenta como legítima, ainda que reproduza a exclusão.

 

A metáfora da raposa e do galinheiro, nesse sentido, deixa de ser mero recurso retórico para se tornar uma chave interpretativa da reprodução social. O poder não se sustenta apenas pela coerção, mas, sobretudo, pela capacidade de se fazer reconhecer como legítimo. Como enfatiza Pierre Bourdieu, a eficácia do poder simbólico reside precisamente em sua invisibilidade: ele dispensa imposição explícita porque se inscreve nas próprias categorias de percepção dos sujeitos.

 

Diante disso, a questão central não é apenas explicativa, mas política: como romper com as estruturas que produzem tal conformação? A resposta não pode ser ingênua. Não se trata de esclarecimento pontual, mas de transformação das condições que tornam a desigualdade inteligível como natural.

 

Como insinuaria José Saramago, é necessário produzir estranhamento — desnaturalizar a cerca, revelar sua historicidade, expor seu caráter construído. Assim, o problema brasileiro não reside exclusivamente na escassez material, mas na eficácia simbólica de uma ordem que converte privação em norma e desigualdade em destino.

 

O desafio, portanto, é eminentemente revolucionário: romper não apenas com as estruturas econômicas da desigualdade, mas com os mecanismos simbólicos que a legitimam — isto é, desarticular o consenso que sustenta o próprio funcionamento da dominação.

Joel Mesquita é Sociólogo

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