Publicidade

Cuiabá, Terça-feira 23/06/2026

Colunas e artigos - A | + A

23.06.2026 | 10h28

O Mato Grosso lidera o agro brasileiro. Mas está preparado para liderar a sucessão?

Facebook Print google plus

Marcia Dolores

Divulgação

Divulgação

O Mato Grosso se consolidou como a principal potência do agronegócio brasileiro. O estado lidera o Valor Bruto da Produção nacional, com R$ 221,3 bilhões em 2025, o equivalente a 15,7% de todo o valor produzido pelo agro no país. Essa liderança foi construída ao longo de décadas, com trabalho, risco, visão empreendedora e capacidade de transformar terra, tecnologia e gestão em riqueza.


Mas há uma pergunta que precisa começar a ser feita com mais coragem dentro das famílias empresárias do campo: quem vai conduzir esse patrimônio nas próximas décadas?


A continuidade das empresas familiares deixou de ser um tema restrito ao ambiente privado. Hoje, ela é uma questão estrutural para a economia brasileira. O agronegócio responde por R$ 3,2 trilhões do PIB nacional em 2025, o equivalente a 25,1% de toda a riqueza produzida no país, considerando a cadeia completa. Dentro da porteira, o Valor Bruto da Produção agropecuária alcança R$ 1,4 trilhão. Ao mesmo tempo, os 39 bilionários brasileiros com vínculo direto com o agro acumulam patrimônio estimado em R$ 382,8 bilhões.


Boa parte desses grupos foi erguida por fundadores que ainda estão no comando e que, nas próximas duas décadas, precisarão passar o bastão. As projeções do Ministério da Agricultura indicam crescimento consistente da produção brasileira até 2033/34. Isso significa que o patrimônio a ser transferido será ainda maior do que é hoje.


O agro mato-grossense é, em grande parte, uma história de fundadores. Homens e mulheres que chegaram ao estado, muitas vezes vindos do Sul, nas décadas de 1970 e 1980, abriram caminho, enfrentaram incertezas e construíram grupos sólidos em uma ou duas gerações. A safra foi profissionalizada. A gestão produtiva evoluiu. O crédito, a tecnologia e a operação avançaram. Mas a família, em muitos casos, não se profissionalizou na mesma velocidade. E é nesse contexto que surge um risco pouco discutido.


A continuidade de um legado não se decide apenas no papel. Ela se decide na confiança entre os herdeiros, na capacidade de comunicação, no preparo emocional dos sucessores e, principalmente, na disposição do fundador para entregar poder sem sentir que está perdendo a própria identidade.


Os dados mostram isso com clareza. Um estudo conduzido ao longo de duas décadas pelo Williams Group, analisou mais de 3.200 famílias empresárias e chegou a uma conclusão reveladora sobre a causa das rupturas patrimoniais: apenas 3% dos casos têm origem em falhas financeiras, jurídicas ou tributárias. Os outros 97% decorrem de fatores humanos, como falhas de comunicação, ausência de confiança e herdeiros despreparados para lidar com o legado recebido. Na prática, são esses 97% que definem se uma família conseguirá atravessar gerações preservando seu patrimônio e seus vínculos.


No agro, essa transição ganha contornos ainda mais sensíveis. A fazenda não é apenas um ativo. É memória, origem, sacrifício, pertencimento e, muitas vezes, a extensão da vida de quem a construiu.


A experiência da Mardô com famílias do setor também revela outro desafio: o distanciamento entre parte da nova geração e a operação do negócio. Muitos dos jovens da Geração Z cresceram cultivando memórias afetivas ligadas à fazenda, mas construíram suas trajetórias em outros contextos - estudaram fora do país, viveram em grandes centros urbanos e desenvolveram repertórios profissionais distintos daqueles de seus pais e avós. Isso não significa rejeição ao legado familiar. Ao contrário: muitas vezes, existe desejo de continuidade, mas acompanhado da necessidade de encontrar novas formas de pertencimento e contribuição.


Entretanto, para muitos fundadores, falar em sucessão é quase falar em ausência. Por isso, o assunto costuma ser adiado até que uma crise torne a conversa inevitável. O problema é que, quando a sucessão chega pela crise, ela chega mais cara: disputas familiares consomem tempo, paralisam decisões, afastam herdeiros, fragilizam a governança e podem comprometer investimentos estratégicos. Em um setor que exige agilidade, escala e visão de longo prazo, a falta de alinhamento familiar pode ser tão perigosa quanto uma quebra de safra ou uma mudança brusca no mercado.


O Mato Grosso lidera o agro porque soube transformar oportunidade em potência econômica. Agora, precisa liderar também uma nova etapa: a profissionalização da continuidade familiar. Isso significa começar conversas antes da ruptura, preparar quem vai herdar e também quem vai entregar, criar instâncias de governança familiar e tratar os conflitos humanos com a mesma seriedade com que se tratam os riscos financeiros e operacionais.


O maior patrimônio do agro mato-grossense não está apenas na terra, nas máquinas ou na produção recorde. Está na capacidade de atravessar gerações sem perder aquilo que levou décadas para ser construído.


Marcia Dolores é fundadora da Mardô Family House Integration, psicóloga, estrategista emocional e pesquisadora da dinâmica humana aplicada aos sistemas familiares e empresariais. Pioneira na integração entre psicologia, neurociência e governança.

Voltar Imprimir

Publicidade

Comentários

Publicidade

Edição digital

Terça-feira, 23/06/2026

imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
btn-4

Indicadores

Milho Disponível R$ 66,90 0,75%

Algodão R$ 164,95 1,41%

Boi à vista R$ 285,25 0,14%

Soja Disponível R$ 153,20 1,06%

Publicidade

Classi fácil
btn-loja-virtual

Publicidade

Mais lidas

O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.

Copyright© 2022 - Gazeta Digital - Todos os direitos reservados Logo Trinix Internet

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.