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22.07.2025 | 11h38

Os desafios emocionais do câncer de cabeça e pescoço

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Rogério Leite

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Receber um diagnóstico de câncer é, por si só, um dos momentos mais difíceis da vida. Quando a doença atinge a região da cabeça e pescoço, os impactos se estendem além do físico, atingindo diretamente a identidade, a comunicação e as relações sociais do paciente.

 

Funções básicas como falar, comer, respirar e sorrir podem ser comprometidas. Cirurgias, radioterapia e quimioterapia frequentemente causam alterações visíveis na face, no pescoço e na voz. Essas mudanças refletem diretamente na autoestima. Olhar no espelho pode se tornar um lembrete doloroso da doença. A imagem corporal, profundamente ligada à percepção de si, é abalada, exigindo uma dolorosa adaptação ao “novo eu”.

 

A dificuldade para falar (disfonia ou afonia), engolir (disfagia) e expressar emoções faz com que muitos pacientes evitem convívios sociais. Reuniões familiares, refeições em grupo ou simples conversas do dia a dia passam a ser evitadas. O medo do julgamento, a frustração de não conseguir se expressar e a sensação de não pertencimento geram isolamento, tristeza profunda e, muitas vezes, depressão.

 

O medo da recorrência é constante. A ansiedade diante de exames e a incerteza sobre o futuro mantêm o paciente em estado de alerta. Mesmo após a remissão, muitos convivem com sintomas emocionais duradouros, como insônia, flashbacks, hipervigilância e sentimentos de vulnerabilidade. Em alguns casos, pode surgir a síndrome do estresse pós-traumático (TEPT).

 

Diante desses desafios, é fundamental garantir suporte psicológico adequado. Como destacou a Dra. Jimmie C. Holland, pioneira da psico-oncologia: “A intervenção psicossocial no câncer não é um luxo, mas uma parte essencial do cuidado oncológico.” Grupos de apoio, psicoterapia e escuta qualificada são ferramentas importantes para reduzir o sofrimento emocional e fortalecer a resiliência do paciente.

 

A espiritualidade, independentemente da religião, também pode ser uma fonte de conforto e significado. E cabe aos profissionais de saúde — médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos — atuarem de forma integrada para garantir um cuidado verdadeiramente humano e integral.

 

Enfrentar o câncer de cabeça e pescoço é uma jornada silenciosa de coragem. Mesmo quando a voz falha e o sorriso se esconde, esses pacientes nos ensinam sobre força, superação e a potência do espírito humano.

 

Rogério Leite é cirurgião oncológico, especialista em cirurgia de cabeça e pescoço, com foco em câncer de tireoide e tireoidite de Hashimoto. Com mais de 20 mil cirurgias realizadas, alia prática clínica, ciência e prevenção para promover saúde com excelência.

 

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