25.11.2024 | 15h38
Divulgação
A prisão de quatro kids pretos (militares especialistas em operações especiais, altamente treinados em ações de sabotagem e de incentivo à insurgência popular), na semana passada, aliada ao indiciamento de Bolsonaro e de boa parte de seu staff, não apenas parece ter sido um desdobramento já anunciado, como põe por terra o argumento de que o “8 de janeiro” foi apenas um passeio no parque que degringolou. Desde meados do ano passado, alguns veículos já levantavam esta hipótese.
Em 06 de junho de 2023, o site da Revista Piauí publicou uma matéria, ilustrada por um vídeo, com o título “Os kids pretos’. O papel da elite de combate do Exército nas maquinações golpistas”. Nela, expõe desde sua relação com o ex-presidente aos métodos usados, passando pelas digitais deixadas em sua participação em várias das ações cometidas na tentativa de impedir a posse do governo eleito.
Segundo a reportagem, Bolsonaro sempre quis ser membro da força, mas foi reprovado em duas tentativas. Mesmo assim não se distanciou e, chegando ao poder, cercou-se de pelo menos 26 deles. Como seu ex-ajudante de ordens Mauro Cid, atualmente às voltas com o STF por causa dos vais-e-vens de sua delação premiada, e o ex-ministro da Saúde e atual deputado federal, Eduardo Pazuello, cujo ex-assessor, o general Mario Fernandes, foi um dos kids pretos presos na semana passada.
O vídeo mostra também uma entrevista de um de seus membros, o general da reserva Ridauto Lucio Fernandes, que dirigiu o setor de logística no governo de Bolsonaro, dando dicas sobre como colocar em prática ações de sabotagem e de insurgência popular. “Você vai buscar os dissidentes, as pessoas descontentes, porque sempre tem. Você vai recrutar essas pessoas e vai instrui-las para que elas aprendam a ser combatentes. E aí, você forma um pequeno exército, com gente que não estava na conta, para poder causar danos para o seu inimigo”.
E conseguiram tal façanha no 8 de janeiro. E como um pequeno exército, não houve ação espontânea, mas coordenada. Entre elas, a derrubada dos gradis, com pessoas empurrando em lugares diferentes ao mesmo tempo e a “divisão quase harmoniosa dos golpistas em três grupos ao chegar à Praça dos Três Poderes”. Um se dirige ao Congresso, outro ao STF e um terceiro ao Palácio do Planalto. “Isso, segundo especialistas, demonstra planejamento, contrariando a tendência natural de toda multidão caminhar unida”. Além disso, após o 8 de janeiro, quatro torres de energia elétrica foram derrubadas e 16 foram danificadas. Os autores ainda não foram identificados.
Alguns bolsonaristas mais radicais (pleonasmo?) podem até argumentar ser esta “uma narrativa comunista”. Se for, é de um comunista muitíssimo rico, na verdade, dono da décima-primeira fortuna brasileira, porque o fundador da Revista Piauí é João Moreira Salles, produtor de filmes como Lavoura Arcaica e Madame Satã. Ah! É irmão da 12ª (fortuna), o cineasta Walter Salles, autor do recém premiado, crítica e público, “Ainda Estou Aqui”.
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista
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