Publicidade

Cuiabá, Sábado 17/01/2026

Colunas e artigos - A | + A

17.01.2026 | 09h36

Os leprosos dos dias de hoje são os descapitalizados

Facebook Print google plus

Paulo Lemos

Chico Ferreira

Chico Ferreira

Durante séculos, a vida em comunidade foi sustentada — ao menos no plano simbólico — por vínculos, valores compartilhados e alguma ideia de pertencimento.

 

Mesmo atravessadas por conflitos e desigualdades, as sociedades carregavam a noção de que a queda não anulava, por si só, o direito de existir no laço social. Cair não significava desaparecer.

 

Esse princípio foi profundamente corroído. Hoje, a medida do valor humano já não é o vínculo, nem o caráter, nem a singularidade, mas o capital.

 

O dinheiro tornou-se o rei soberano das relações. É ele quem media o reconhecimento, regula a proximidade, define quem merece escuta, respeito e lugar. Não atua apenas como instrumento econômico, mas como poder simbólico absoluto, diante do qual sujeitos e grupos se organizam — ou se submetem.

 

Nesse regime, o dinheiro não apenas compra coisas: compra pertencimento. Quem tem, circula. Quem perde, é silenciado. Os descapitalizados tornam-se os leprosos contemporâneos.

 

Não porque sejam perigosos, mas porque denunciam uma verdade incômoda: o sucesso é instável, a segurança é frágil e ninguém está definitivamente protegido. Por isso, são mantidos à distância.

 

A soberania do dinheiro impõe ainda uma cultura de exclusão mais refinada. Não basta existir; é preciso parecer igual. Quem ousa ser diferente — não por carência, mas por valores — passa a ser visto como ameaça.

 

A recusa ao exibicionismo, ao consumo compulsivo e à competição permanente é lida como inadequação. A diferença ética se torna suspeita.

 

Forma-se, assim, uma divisão silenciosa. De um lado, a liberdade de ser diferente sem ser excluído — cada vez mais rara. De outro, a prisão da servidão do ter, em que o sujeito precisa possuir, ostentar e competir para continuar sendo aceito.

 

No primeiro caso, o valor não tem preço. No segundo, a aceitação social cobra pedágio constante. Quem não paga — por impossibilidade ou por recusa — é empurrado para as margens.

 

Essa lógica produz um sofrimento profundo e pouco visível. O sujeito aprende que existir plenamente custa caro. Aprende a se calar para não incomodar, a reduzir seus desejos para não destoar, a esconder a dor para não ser descartado.

 

A vergonha substitui a dor legítima. O silêncio substitui o pedido. A vida vai se estreitando sem que seja necessário um gesto explícito de exclusão.

 

Não se trata de negar a importância do trabalho, da responsabilidade ou da autonomia. Trata-se de denunciar uma inversão ética central: quando o dinheiro se torna o mediador soberano de todas as relações, a dignidade deixa de ser direito e passa a ser prêmio.

 

O reconhecimento vira mercadoria. O valor humano se confunde com preço. Os leprosos de ontem eram afastados por medo do contágio. Os de hoje são afastados por medo do espelho.

 

Sua existência revela a violência de um sistema que confunde ser com ter, liberdade com consumo, pertencimento com desempenho.

 

Enquanto aceitarmos essa soberania sem questionamento, continuaremos produzindo excluídos — não apenas pela falta de dinheiro, mas pela recusa em se submeter à servidão do ter para poder ser.

 

Talvez a questão decisiva do nosso tempo não seja econômica, mas ética: queremos uma sociedade em que a diferença seja sinal de liberdade ou uma em que a aceitação dependa da obediência ao rei dinheiro?

 

Enquanto essa pergunta não for enfrentada, os descapitalizados continuarão carregando a marca da nova lepra — a exclusão travestida de normalidade.

 

Paulo Lemos é advogado em Cuiabá e Mato Grosso

Voltar Imprimir

Publicidade

Comentários

Enquete

Esta semana, um deputado criticou veto presidencial e disse que a medida foi aprovada pelo Congresso, que representa o ‘povo'. De modo geral, você se sente representado por quem elegeu?

Parcial

Publicidade

Edição digital

Sexta-feira, 16/01/2026

imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
btn-4

Indicadores

Milho Disponível R$ 66,90 0,75%

Algodão R$ 164,95 1,41%

Boi à vista R$ 285,25 0,14%

Soja Disponível R$ 153,20 1,06%

Publicidade

Classi fácil
btn-loja-virtual

Publicidade

Mais lidas

O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.

Copyright© 2022 - Gazeta Digital - Todos os direitos reservados Logo Trinix Internet

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.