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30.06.2026 | 12h58

Prevenir o abuso de crianças requer um olhar atento em casa e na comunidade

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Mariana Machado Rocha

Isabella Martins

Isabella Martins

A ideia de que o perigo vem de estranhos ainda é uma das maiores falsas percepções relacionadas à violência contra crianças. Na maioria dos casos, ela ocorre dentro de casa, praticada por pessoas conhecidas e em ambientes que deveriam representar proteção e cuidado. Enfrentar essa realidade exige um olhar atento das famílias, das escolas e de toda a sociedade.


Em junho, mês dedicado à conscientização sobre a parentalidade, somos convidados a refletir sobre o papel dos adultos na construção de ambientes seguros e acolhedores para crianças e adolescentes. Essa reflexão se torna ainda mais necessária diante de uma das mais graves violações de direitos da infância: a violência sexual.


Os números não deixam dúvidas: 76% dos casos de estupros registrados no Brasil são estupros de vulnerável, quando a vítima tem menos de 14 anos.


Na Amazônia Legal, região que abarca nove estados do bioma amazônico, os indicadores são ainda mais alarmantes: Seis entre os dez estados brasileiros com os maiores índices de violência sexual contra crianças e adolescentes estão localizados neste território, de acordo com o estudo Violência contra crianças e adolescentes na Amazônia, lançado em 2025 pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em parceria com Fórum Brasileiro de Segurança Pública.


A região apresenta uma taxa de violência sexual 21,4% acima da média do Brasil e Mato Grosso ocupa a terceira posição entre os estados da Amazônia com maior incidência deste tipo de violência, atrás de Rondônia e Roraima. No estado, essa taxa é 62% maior que a média nacional.


Dados das Secretarias de Segurança Pública estaduais, referentes ao período de 2021 a 2024, mostram que a maior parte das vítimas deste crime são meninas negras, com idade entre 10 e 14 anos. Entre meninos, as violações ocorrem principalmente até os 10 anos de idade.


Violência que acontece dentro de casa
Talvez o dado mais duro de todos seja justamente aquele que desmonta a ideia de que o perigo está sempre fora. Em 65% dos casos o crime acontece na própria residência da criança ou adolescente.


A violência dentro de casa também tem sido facilitada pelo uso das tecnologias digitais, atingindo crianças e jovens de forma alarmante. Dados do relatório Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, lançado em 2026 pelo UNICEF Innocenti em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL indicam que um em cada quatro adolescentes de 12 a 17 anos que usam a Internet no Brasil foram submetidos a exploração e/ou abuso sexual facilitados pela tecnologia em um período de apenas um ano. Em 49% dos casos, o agressor era conhecido pela vítima.


As consequências físicas e psicológicas dessas violências são profundas. Vítimas desses crimes têm cinco vezes mais chances de automutilação e de pensamentos ou tentativas de suicídio. Ainda assim, em mais de um terço dos casos de exploração e abuso sexual facilitados por tecnologia as crianças e adolescentes não contaram a ninguém o que aconteceu com elas, por não saberem a quem recorrer, por vergonha ou por pensarem que ninguém acreditaria em seu relato.


Nesses casos, os sinais costumam aparecer de forma silenciosa: isolamento, alterações de comportamento, distúrbios do sono, mudanças no apetite, medo excessivo, queda no rendimento escolar ou automutilação. Por isso, adultos atentos fazem diferença.


É essencial compreender esse cenário para entender onde estão os maiores riscos e como devemos atuar na prevenção da violência sexual contra crianças e adolescentes. O diálogo com mães, pais e cuidadores é determinante para que crianças se sintam seguras para relatar situações de violência. A forma como os adultos reagem aos relatos também faz diferença. Infelizmente, ainda é comum que crianças sejam culpabilizadas, desacreditadas ou silenciadas dentro dos próprios lares.


Como cuidadores, família e comunidade, precisamos exercer a parentalidade protetiva, ser atentos e ativos em preparar crianças e adolescentes para identificar ameaças antes de os crimes ocorrerem e buscar ajuda quando necessário. O diálogo franco, acolhedor e respeitoso no ambiente familiar pode ser determinante para retirar a criança ou adolescente da situação de risco ou abuso e prevenir danos maiores.


Para além do ambiente doméstico, as escolas são um dos principais pontos de identificação e revelação espontânea das violações. A preparação desta rede para reconhecer violências, acolher relatos e encaminhar denúncias é determinante para que os casos sejam revelados, as denúncias formalizadas e as crianças e adolescentes tenham acesso a serviços de apoio.


O desafio está posto e é da maior urgência. Ensinar crianças sobre a inviolabilidade de seus corpos e quais comportamentos são respeitosos é o primeiro passo na prevenção. Em paralelo, cuidadores, familiares e rede de atendimento a crianças e adolescentes devem ter o olhar sempre apurado para identificar mudanças de comportamento e estar abertos às conversas difíceis, porém necessárias. Este deve ser um compromisso coletivo. Se cada um assumir seu papel na proteção, nossas crianças e adolescentes estarão mais seguros e amparados.

 

Mariana Machado Rocha trabalha como Chefe de Escritório do UNICEF Brasil para os estados do Pará, Tocantins, Mato Grosso e Amapá.

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