08.07.2026 | 12h06
Divulgação
Recentemente, o debate sobre a falta de policiais militares em Mato Grosso repercutiu diante da afirmação do governador Otaviano Pivetta de que a proporção de um policial para cada 500 habitantes é suficiente. Tomando como base só este número, ele já estaria errado, pois, considerando a população mato-grossense atual, havia um policial para cada 534 moradores. Contudo, quem trabalha na rua sabe que segurança não é algo estático; ela é instável, que muda conforme o período e região. Reduzir um estado gigante a uma média de papel é um erro grave, pois a segurança de verdade depende de fatores que os números sozinhos não mostram.
Hoje Mato Grosso tem aproximadamente 3.893.659, segundo dados do IBGE, e 7,5 mil policiais militares, considerando aluno soldado, os que atuam em órgãos do governo e os que estão efetivamente na patrulha urbana.
Essa ideia de que um policial para cada 500 pessoas é o ideal vem de estudos antigos e serve apenas como uma estatística, não como uma regra. Existe um ditado que explica bem essa armadilha: se uma pessoa estiver com a cabeça no forno e os pés no congelador, a temperatura média parecerá morna, mas a realidade será trágica. A conta no papel ignora o número de crimes, o tempo que a viatura demora para chegar e as distâncias reais que a polícia precisa percorrer em cada região.
Nosso estado tem um território enorme, muitas cidades distantes e quase mil quilômetros de fronteira com a Bolívia, que é uma rota perigosa para o tráfico de armas e drogas. Enquanto na capital uma viatura atende vários chamados andando poucos quilômetros, no interior o atendimento de uma única ocorrência pode exigir uma viagem de horas.
Para entender a falta de pessoal, basta olhar os dados oficiais de abril de 2026: quase metade das vagas previstas por lei na Polícia Militar do estado estava vazia. O pior é que a maioria dessas vagas abertas é para soldados e cabos, que são justamente os policiais que patrulham as ruas e atendem o cidadão. Se a própria lei do Estado diz que precisamos de mais de 13 mil policiais, não faz sentido dizer que 7,5 mil são suficientes para proteger a população.
Outro erro é achar que todo policial contratado está na rua combatendo o crime. O número total inclui militares que trabalham no escritório, na inteligência, na saúde, além daqueles que estão de férias, licença ou fazendo cursos de formação. Na capital, por exemplo, a proporção real de policiais por habitante é muito menor do que a divulgada. Quando falta gente, o atendimento demora mais, o policiamento preventivo diminui e a tropa adoece pelo excesso de trabalho.
O governo exalta seu investimento em tecnologia, como câmeras e drones, o que é muito positivo. Porém, a tecnologia é apenas uma ferramenta e não substitui o ser humano. Uma câmera pode filmar um carro roubado, mas não faz a abordagem; um drone localiza um suspeito na mata, mas não faz a prisão; e um sistema registra uma agressão, mas não socorre a vítima. Além disso, a PM ganhou novas funções essenciais, como a Patrulha Maria da Penha e o policiamento rural, o que exige ainda mais homens trabalhando.
A recente convocação de 450 candidatos aprovados no concurso é uma ótima notícia, mas não resolve o problema sozinha. Esses novos soldados ainda precisam passar por meses de curso e, enquanto eles treinam, outros policiais continuam se aposentando ou pedindo baixa. Como uma grande turma de policiais contratados no final dos anos 1990 está prestes a se aposentar, corremos o risco de colocar novos agentes nas ruas apenas para cobrir as saídas, mantendo o desfalque do mesmo jeito.
Contratar mais policiais não é um privilégio para a categoria, mas uma necessidade para proteger a vida das pessoas, garantir a segurança das escolas e combater o crime organizado. Precisamos de um debate transparente sobre a realidade dos nossos municípios e turnos de trabalho. A segurança pública avançará de verdade quando o governo entender que o investimento mais importante sempre será o ser humano preparado, valorizado e presente onde a sociedade precisa.
Em razão da necessidade de ajustar a proporção entre a quantidade de praças e oficiais na Polícia Militar de Mato Grosso (PMMT), torna-se necessário também convocar os demais aprovados no concurso para o Curso de Formação de Oficiais (CFO), a fim de assegurar uma estrutura organizacional mais equilibrada e eficiente, promovendo, assim, uma gestão aprimorada e um atendimento mais eficaz às demandas da segurança pública no estado.
Sargento Laudicério Machado, o 'sargento Lau' é presidente da Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros (licenciado), presidente do Conselho Fiscal da Federação Nacional de Praças (ANASPRA), graduado em administração e direito, doutor em Administração, acadêmico em Ciências Sociais pela UFMT.
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