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Cuiabá, Segunda-feira 19/10/2026

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19.10.2026 | 11h28

Tem uns dias que eu acordo pensando e querendo saber

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Roberta D'Albuquerque

Divulgação

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Segunda: Teve esperança.

 

Terça: Teve Yoga mas eu faltei. É que o telefone dizia que ia chover e eu vou a pé. Ainda bem que o professor abre a câmera e oferece aula online. Desenrolei o tapete na sala, sentei na posição de começar, ouvi que agora a gente precisava concentrar na respiração. Concentrei. Uma respiração desritmada, meio rápida, meio curta. Desliguei e fui fazer jantar.

 

Quarta: Teve chuva de granizo. Lalá chegou em casa inteira molhada como se tivesse entrado no banho de roupa e tudo. Choveu a tarde inteiro, dois tempos de uns 10 minutos concentraram a força maior da tempestade. O tempo dela andar da faculdade para o metrô e do metrô pra casa. Disse que chegou a doer a cabeça.

 

Quinta: Teve a sessão mais impressionante da semana. Saí do consultório feliz por estar viva e ter a oportunidade de testemunhar aquilo. Teve promoção de mamão no Pão de Açúcar também.

 

Sexta: Teve o José Miguel Wisnik na Casa de Francisca. Não sei se foi na sexta, mas eu ouvi na sexta. Tudo bonito de rasgar. Quando ele cantou O Jequitibá, eu chorei. Senti pena de mim por não ter ouvido essa música antes, por não ter pensado na Paulista sem o Masp e seu vão, por saber que nem todo mundo vai ouvir a entrevista que ele dividiu com o Ailton Krenak. No primeiro ano da pandemia, ouvi uma entrevista do Krenak e senti meio parecido. Tenho me preocupado com o número de vezes que mencionei os anos de pandemia nas últimas semanas. Tenho me preocupado com um frio na barriga quase igual, bem quase mesmo. Queria que tivesse passado já.

 

Sábado: Teve show do Jorge Ben. Errare Humanum Est foi de respirar mais fundo. Também teve confusão na fila do galeto aqui da Martim Francisco. Um grupo grande gritava que 13, outro que 22. Começou meio miudinho, um comentário sobre um adesivo, depois esquentou. Não houve contato físico. Mas ambos ficaram nervosos. Eu tava na fila, tomei um susto quando encostei a mão no peito e me percebi sem adesivo, ao mesmo tempo, tive uma vontade imensa que o próximo sábado chegasse rápido, com ele o domingo.

 

Domingo: Teve galeto do sábado e farofa do galeto do sábado que, requentada na frigideira, parece que apurou. Às vezes é difícil imaginar a capacidade que a farofa do galeto tem de ficar ainda melhor que no dia do galeto. Mas ela consegue. Passei bem o dia. Passei mal à noite. Chorei com o Caetano chorando. Li O Velho Abutre de Sophia de Mello Breyner Andresen antes de dormir. É assim: O velho abutre é sábio e alisa as suas penas. A podridão lhe agrada e seus discursos têm o dom de tornar as almas mais pequenas. Fechei o olho.

 

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br

 

Coluna semanal atualizada às segundas-feiras

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