16.04.2026 | 10h11
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No Brasil, tornou-se comum a autodefinição de políticos como “liberais na economia e conservadores nos costumes”. A fórmula sugere harmonia entre liberdade econômica e prudência moral. Na prática, porém, essa síntese frequentemente se desfaz em contradição.
O que se observa é uma gestão que, sob o pretexto de responsabilidade fiscal, transforma o Estado em um fim em si mesmo. A máquina pública passa a ser preservada e expandida — ainda que à custa do cidadão, do empreendedor e até mesmo daqueles que fornecem bens e serviços ao próprio Estado.
Isso se revela de forma concreta em três práticas recorrentes: o não pagamento ou atraso sistemático de dívidas com empresas fornecedoras, o aumento contínuo da arrecadação e o endurecimento da fiscalização tributária.
Em vez de ajustar suas despesas, o Estado transfere o ônus de sua ineficiência à sociedade — inclusive àqueles que dele dependem para receber. Aumentam-se impostos de forma direta ou indireta, ampliam-se mecanismos de cobrança e intensificam-se as fiscalizações, muitas vezes com viés arrecadatório.
O resultado não é equilíbrio, mas a asfixia da atividade produtiva. Há, aqui, um equívoco central: confundir austeridade com arrecadação. Austeridade verdadeira não é extrair mais recursos, mas gastar melhor — ou menos.
Cada valor arrecadado representa o esforço concreto de alguém e exige justificativa moral, não apenas contábil. Também se evidencia uma tensão entre o discurso conservador e a prática estatizante.
O conservadorismo, em sua essência, busca preservar a ordem viva da sociedade — família, trabalho, comunidade. Quando o Estado se agiganta e passa a sufocar essas instâncias, deixa de protegê-las e passa a substituí-las.
No contexto brasileiro, isso se agrava. Governos que se apresentam como defensores do empreendedorismo frequentemente criam obstáculos: atrasam pagamentos a fornecedores, alteram regras de forma abrupta e ampliam a carga tributária sob justificativas técnicas.
O efeito é previsível: insegurança jurídica, retração de investimentos e, no longo prazo, queda na própria arrecadação. Uma gestão verdadeiramente liberal-conservadora exigiria coerência.
Não basta o discurso. É preciso reduzir entraves, respeitar contratos — inclusive pagando em dia quem fornece ao Estado — e conter o impulso arrecadatório como solução automática para desequilíbrios fiscais.
Isso implica recolocar o Estado em seu devido lugar: não como protagonista econômico, mas como garantidor de estabilidade e justiça. Seu papel não é maximizar receitas por meio de mais impostos e fiscalização, mas criar um ambiente onde a sociedade possa prosperar.
Quando essa distinção se perde, a gestão pública deixa de servir e passa a se apropriar. E uma política que penaliza quem produz, enquanto amplia sua própria máquina, já não pode ser chamada nem de liberal, nem de conservadora — apenas de mais uma expressão de um velho vício nacional.
Orlando Morais é jornalista
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