15.08.2008 | 03h00
Desde cedo nós verificamos que é comum a comparação entre seres humanos e animais, tendo em vista as práticas da nossa vida cotidiana, o que é conhecido tecnicamente como metáforas zoomórficas. A metáfora é a figura de linguagem que consiste na transferência de significado de uma palavra para outra, onde o significado do termo não é exatamente aquele que a palavra designa. Zoomórfica porque se utiliza de formas animais para identificar a significação da mensagem. Assim é que surgem as comparações mais usuais: meu filho é forte como um touro, minha filha é corajosa como uma leoa, etc. Enfim, essas metáforas, muitas vezes, são bastante positivas e se valem de características presentes nos animais como a beleza, a força ou a sagacidade, todas transferidas para os humanos dos quais ou aos quais estamos nos referindo. Em outros casos são depreciativas, pejorativas.
Certa feita li um livro de Leonardo Boff, cujo título, se não me engano, é "A águia e a galinha", onde ele mostra uma metáfora da condição humana retratada pelas ações dos dois animais. Vejam só que interessante: a águia é capaz de ficar jovem novamente ao trocar suas garras e bico, renascendo vigorosa. Há até passagem bíblica sobre isso (salmo 103, versículo 5). Ocorre que, segundo a metáfora "boffiana", um camponês encontrou um filho de águia e o colocou com as galinhas. Comia ração de galinha e se desenvolveu com as galinhas. Passados alguns anos, apareceu um naturalista na sua propriedade e, percebendo que o pássaro não se assemelhava às galinhas na aparência física, disse ao camponês que se tratava de uma águia. O camponês realmente concordou que na aparência se tratava de uma águia, mas como foi criada como galinha, transformou-se como galinha tal qual as outras. Apesar de todo o seu porte e seu histórico genético, agora não passava de uma galinha.
Ainda falando de metáforas zoomórficas, lembro-me da cobra, que é a metáfora perfeita para pessoas de má índole, intrigantes, más e traiçoeiras. Pejorativamente são verdadeiras "jararacas" e "cascavéis", pestes e víboras peçonhentas. Até a sabedoria popular, religiosa, desenvolveu a tese de que "Deus não dá asas à cobra", o que foi confirmado pela ciência, que encontrou vestígios de membros locomotores atrofiados nos ancestrais desse animal, mas sem asas atrofiadas. E como estou falando de metáfora, vamos a uma sobre a cobra, que se chama a cobra e o vagalume.
Conta a lenda que uma vez uma serpente começou a perseguir um vagalume. Este fugia rápido, com medo da feroz predadora e a serpente nem pensava em desistir. Fugiu um dia e ela não desistia, dois dias e nada... No terceiro dia, já sem forças, o vagalume parou e disse à cobra:
- Posso lhe fazer três perguntas?
- Não costumo abrir esse precedente para ninguém, mas já que vou te devorar mesmo, pode perguntar...
- Pertenço à sua cadeia alimentar?
- Não.
- Eu já te fiz algum mal?
- Não.
- Então, por que você quer acabar comigo?
- Porque eu não suporto ver você brilhar...
A transferência de características dos animais para seres humanos por meio de metáforas no tocante à significação de qualidades ou defeitos, ou ainda de termos pejorativos, sempre está diretamente associada à atribuição de juízos de valor individuais e próprios. Nos momentos de raiva ou exaltação dos seres humanos é que os vários componentes do reino animal são por eles lembrados para expressar a crítica, a censura, a depreciação e qualquer outra opinião desfavorável.
Portanto, toda vez que alguém vier falar de alguém com você se valendo de metáforas zoomórficas, pare um pouco e reflita sobre qual animal ele efetivamente representa ao estar falando. Quase sempre ele será uma águia, uma galinha ou uma cobra. Observe e confira.
Antonio Horácio da Silva Neto é juiz de direito e presidente Associação Mato-grossense de Magistrados (Amam). E-mail: ahneto@terra.com.br
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