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31.03.2018 | 10h00

Outras culturas

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Nesta semana, quando o mundo celebra, na Páscoa, a ressureição do Cristo triunfando sobre a morte, creio ser um momento oportuno para pensarmos um pouco sobre coisas que vêm acontecendo em nosso país e, mais particularmente, em nosso estado. E mais particularmente ainda, sobre um descompasso marcante: a quase total ausência de políticas de Estado relativas à cultura e às artes no âmbito do desenvolvimento de Mato Grosso como um todo, neste momento.

Com efeito, vive-se uma situação de quase completa inanição do aparelho estatal mato-grossense frente à necessidade, imprescindível, de integração da cultura com as demais políticas sociais. Mato Grosso é um sucesso consolidado no agronegócio, em culturas que brotam da terra com o trabalho de homens e mulheres, isso ninguém pode negar. Mas já a cultura enquanto experiência cidadã e fermento necessário para a plena realização das aspirações humanas vive dias de inércia, jogada ao deus-dará. Evidência disso é a própria condição da Secretaria de Estado de Cultura entre o fim do ano passado e esses primeiros meses de 2018: o jornalista Kleber Lima assumiu como secretário da pasta já às vésperas do Natal e agora, cerca de três meses depois, acaba de anunciar sua saída do staff de Pedro Taques. Resultado: neste momento, quando este artigo está sendo lido por você, o cargo de maior relevo na cultura estadual encontra-se sem liderança.

Infelizmente, entretanto, essa triste realidade não é exclusividade do Mato Grosso atual. Longe disso. Dados da Unesco recentemente publicados dão conta que a maioria dos brasileiros não frequenta cinema, quase todos os brasileiros nunca frequentaram museus ou jamais frequentaram alguma exposição de arte. Mais de 70% dos brasileiros nunca assistiram a um espetáculo de dança, embora muitos saiam para dançar. Grande parte dos municípios não dispõe de salas de cinema, teatro, museus e espaços culturais multiuso. Livros são artigos que chegam às mãos de bem poucos porque a maioria não tem dinheiro para comprar e também porque o brasileiro praticamente não tem o hábito de ler. Até o acesso à internet, tão decantado de uns tempos pra cá, está longe de alcançar a todos: uma grande porcentagem de brasileiros não tem computador em casa, destes, a maioria não tem qualquer acesso à internet (nem no trabalho, nem na escola). Dentre os profissionais da cultura no país, metade não tem carteira assinada ou então trabalha por conta própria. Trocando em miúdos: a cultura no Brasil vive na informalidade.

De outro lado sabe-se que a adoção de políticas culturais que informem a população, em nível de estados e municípios, pode ser fator decisivo para a superação desse quadro de inércia, reforçando a diversidade cultural como fator da sustentabilidade do desenvolvimento.

Mato Grosso hoje é um Estado triste. E nem só neste nosso setor, o que é ainda pior. Trata-se de um estado de espírito de derrota, decepção, de estagnação que infelizmente prevalece. Em que pesem as boas notícias (somos campeões nisso, somos campeões naquilo), essa alegria não é de Mato Grosso, é uma alegria de poucos. Mato Grosso está triste por todos os dados que afere hoje: na segurança, na saúde e na cultura.

Políticas de cultura pensadas e implementadas pelo Estado são necessárias para a inserção do grosso da população à fruição dos bens da cultura e da arte. Na verdade, mais que necessárias: elas são imprescindíveis. Eu, você que me lê agora, por certo podemos ir ao cinema, a concertos, espetáculos de teatro e dança, podemos comprar livros, mas e as pessoas que não têm dinheiro sequer pra se alimentar? Pra essas pessoas, pra essa camada da população, pra que tenham acesso a informações básicas de segurança, de educação, há que se ter o olhar generoso do Estado brasileiro e do Estado de Mato Grosso. Isto trará, sem dúvida alguma, um outro olhar àqueles que estariam destinados ao nada cultural e à ausência total da informação.

Que possamos fazer nesta Páscoa, nesta hora em que na tradição cristã a luz venceu as trevas, em que a vida venceu a morte, uma reflexão sobre o Estado que temos e sobre o Estado que queremos para todos nós.

*Fabrício Carvalho é maestro e secretário de Articulação e Relações Institucionais da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Mestre em música pela Universidade de Campinas (Unicamp), dirigiu importantes orquestras brasileiras, como a Sinfônica da Unicamp (SP), a Sesi Minas (MG) e a Orquestra de Câmara do Conservatório Brasileiro de Música, do Rio de Janeiro (RJ). Como compositor, criou trilhas para teatro, além de trabalhos e peças para televisão.

 

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