Publicidade

Cuiabá, Sexta-feira 03/04/2026

Opinião - A | + A

04.01.2010 | 03h00

Os piores livros da década

Facebook Print google plus

Fazer listas de melhores e piores em qualquer área é uma futilidade irresistível, mais ainda na área cultural - filmes, músicas, livros, etc. - quando as justificativas pela escolha dependem menos da razão e mais do achismo, ao gênero de "gosto e acabou-se".

Ou "detesto e pronto", como é o caso das listas de piores, ainda mais tentadoras porque permitem castigar sem responsabilidade as obras que nos irritaram por serem pretensiosas, chatas, confusas, mal-feitas - ou apenas porque nos pegaram de mau-humor e má vontade. É neste espírito que levo a vocês a discussão aberta por meu jornal britânico favorito - The Guardian - para tratar dos livros da década que se encerra. Não apenas as melhores obras do período, devidamente publicada após consulta a vários especialistas (www.guardian.co.uk/books/bestbooks), e sim a lista daqueles livros que, nas palavras da debochada crítica americana Dorothy Parker, devemos não apenas deixar de lado, mas lançar longe e com fúria.

É fácil descartar os best-sellers, de autores que automaticamente vendem aos milhões e irritam críticos em parte por causa desse sucesso comercial ou porque as obras são de fato ruim. É onde se encaixam no Brasil, por exemplo, as obras de Paulo Coelho, sucesso de vendagem e alvo regular dos críticos que denunciam falta de qualidade literária no que ele escreve.

Por isso, é possível que Coelho entrasse numa lista semelhante dos piores da década entre autores ou livros brasileiros. Ou não? Quem sabe eles teriam opinião diferente da dos críticos, expressa por admiração do conteúdo e não apenas pela compra da obra?

Convido então os leitores desta coluna, seus parentes e amigos, a fazer lista própria e discutir entre si, de preferência em meio a acusações quentes aos outros de não entenderem nada de livros. E se indignar de ver os outros listarem entre piores algumas obras que você mesmo considera geniais. Acima de tudo, não se deve levar um levantamento desses muito a sério.

No jogo dos piores proposto pelo Guardian a seus leitores britânicos e estrangeiros, sobretudo na versão interativa on-line, que rendeu dezenas de contribuições, o "alvo fácil" nesta categoria foi Dan Brown e seu Código Da Vinci malhados como obras a se jogar longe. Nem mágica salvou da mesma artilharia pesada o pobre do Harry Potter e sua criadora J.K. Rowling, talvez até pelo motivo igual de vender muito (e põe muito nisso) ou de ser, segundo alguns, nada mais do que subliteratura derivada dos clássicos de T.R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis (que por sua vez não escapou da fúria de um leitor: "Comecei a ler esta porcaria em 1958 e só acabei hoje à tarde".

A surpresa, porém, foi a frequência com que apareceu aqui na lista dos piores o nome de um dos mais respeitados escritores britânicos contemporâneos: Ian McEwan, autor de Reparação, Sábado e Na Praia, entre outros livros elogiados por críticos literários, ganhadores de prêmios, transformados em filmes de sucesso. "Pretensioso" queixou-se um leitor sobre o estilo de McEwan, enquanto outro reclamou que o autor criava histórias implausíveis e arrastadas, ao passo que um terceiro chegou a lamentar um suposto "excesso de pesquisa" por parte do autor, seja lá o que for isso.

A lista do Guardian se mostra muito influenciada, claro, por livros em inglês, lançados no Reino Unido ou nos Estados Unidos, como se poderia prever de uma brincadeira aberta ao público aqui. Não dispensa, porém, críticas a algumas obras traduzidas, como Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel Garcia Marquez ("superestimado", queixou-se um leitor).

O chileno Roberto Bolaño também entrou na lista dos piores, com 2066, uma das sensações literárias do ano, descoberta como por acaso após a morte do autor, e muito elogiada por críticos europeus e americanos. Já o leitor do Guardian que o indicou para a honra duvidosa diz: "Chorei de tédio ao ler e parei na página 133".

Outros autores de prestígio que entraram na lista dos piores da década do Guardian incluem Salman Rushdie, Vikram Seth, Martin Amis, Alice Seabold, Monica Ali e Zadie Smith, o que talvez acalme a ira de outros menos consagrados pela arte de escrever, apesar de venderem muito, como Patricia Cornwell, com seus numerosos livros policiais com toques legistas (Predador, Causa Mortis), e Khaled Hosseini, com suas reminiscências de um Afeganistão menos conturbado em sua infância (O Caçador de Pipas, A Cidade do Sol).

Um dos argumentos do Guardian para lançar o desafio dos piores livros é que não convém associarmos décadas apenas aos bons livros lançados no período, mas também às porcarias da época. De fato, precisamos fazer força para não se esquecer das bobagens lançadas nos anos 90 (ou 80, 70, 60, e assim por diante). Alguém se aventura a fazer essas listas complementares? Consultem seus amigos.

Antes de abandonar a brincadeira do Guardian para a década que se encerra, tentei pensar numa contribuição pessoal. Não teria sentido incluir livros que nem li por medo de que merecessem a má reputação generalizada e viessem a ocupar demais o apertado tempo disponível para leitura. Resolvi que só valia citar uma obra que eu tivesse começado a ler por livre escolha e, contra todos os meus hábitos e princípios, abandonasse no meio por ser intragável.

Meu vencedor: Prazeres e Desprazeres do Trabalho, de Alain de Botton. Parei no meio, entediado ao extremo com a incapacidade do autor em tratar do que o título prometia e me dispus a trocar a prosa de Botton até pelas instruções obscuras do manual de operações do meu aparelho de vídeo. Escolho este, entre outros ruins, porque acaba de ser traduzido e lançado no Brasil, ameaçando crianças e outros desprevenidos.

Silio Boccanera é jornalista em Londres (Inglaterra) e escreve em A Gazeta às segundas-feiras. E-mail: silioboccanera@aol.com

Voltar Imprimir

Publicidade

Comentários

Enquete

O que você acha da obrigatoriedade de comprovar idade ao acessar redes sociais?

Parcial

Publicidade

Edição digital

Sexta-feira, 03/04/2026

imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
btn-4

Indicadores

Milho Disponível R$ 66,90 0,75%

Algodão R$ 164,95 1,41%

Boi à vista R$ 285,25 0,14%

Soja Disponível R$ 153,20 1,06%

Publicidade

Classi fácil
btn-loja-virtual

Publicidade

Mais lidas

O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.

Copyright© 2022 - Gazeta Digital - Todos os direitos reservados Logo Trinix Internet

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.