18.07.2005 | 03h00
"É só escama de peixe, não tem jiló. Dá uma fortalecida no pessoal do azeite e larga o bicho nos bruxo". Se você não entendeu nada, o delegado Lorenzo Pompílio da Hora, que ficou cinco anos à frente da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal no Rio, pode ajudar. É mais ou menos isso: "É só cocaína boa, não tem da ruim. Vamos apoiar o pessoal da Morro do Dendê e mandar bala na polícia".
Professor de Direito Penal, Lorenzo montou um glossário de expressões do tráfico para sua tese de doutorado em Educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No trabalho, ele constata a existência de uma linguagem voltada para a violência, que desperta no jovem uma "conduta guerreira". O professor, 45, diz que, no Rio, em determinados lugares e circunstâncias, o uso da palavra adequada pode ser questão de vida ou morte. O delegado participou de operações importantes da Polícia Federal, como as de busca e apreensão nas casas do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes e do ex-banqueiro Salvatore Cacciola, em 1999. No ano passado, prendeu o publicitário Duda Mendonça numa rinha de galos na zona oeste do Rio.
Lorenzo conta que decidiu voltar a estudar após levar um tiro de fuzil no ombro, em outubro de 2002. E elegeu para sua tese o uso de expressões por jovens de 12 a 24 anos. "Há uma ideologia, todo um imaginário social criminoso que vem sendo estruturado", afirma. Apesar de expressões do tráfico como "já é" (é para já) terem se tornado de uso corrente até entre jovens da classe média, Lorenzo diz que a linguagem acirra a divisão de classes e gerações, esvaziando "o espaço destinado à educação". Mas permite desenvolver novas construções lingüísticas. "O crime organizado atingiu uma proporção que não pode ser mais enfrentada somente com repressão física", escreveu Lorenzo na proposta da tese. "Há a necessidade de conhecermos a linguagem desses universos para que possamos interagir e desconstruir os ícones de violência. Até a minha filha de 17 anos usa expressões do tráfico que viraram coloquiais, isso é natural, não considero negativo. Mas acho que ela tem consciência do que está fazendo, nós conversamos muito. E o jovem que nem estuda?" - questiona o delegado.
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