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02.09.2016 | 08h12

PCC promoveu três tribunais do crime para julgar Daleste

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A loja do tráfico localizada debaixo de uma garagem na quadra “Z” do CDHU San Martin abre às 9h e fecha às 2h. “Campanas” ou “antenas” se revezam em dois turnos e vigiam a entrada de estranhos. Eles ganham R$ 100 por dia e se reportam ao “gerente Isaias” e este ao “patrão”, um tal de Mister M, Dr. ou Hélio.

O encarregado de impedir problemas do bairro e encaminhá-los aos “irmãos” do PCC é o “disciplina”, conhecido como “Boy”.

As afirmações são de uma testemunha protegida no inquérito policial do assassinato do funkeiro Daniel Pellegrine, o MC Daleste, ocorrido em julho de 2013. Segundo ela, o PCC não tem muita força na comunidade, mas muitos “irmãos”, como são chamados os integrantes associados à facção criminosa, moram no local. Ainda assim, diversos depoimentos fazem referência ao PCC antes e depois da morte do cantor e indicam que o grupo realizou três tribunais do crime para julgar atitudes de Daleste.

Primeiro Tribunal

Três meses antes do assassinato de Mc Daleste, o cunhado do cantor, Marcelo Mc Pet, declarou ter recebido ligação em que um homem lhe disse: “Você sabe que o Daleste ficou com Juliana a qual trabalhava numa casa de prostituição do Jd. Itatinga em Campinas”.

Ele avisou que Daleste estava sendo acusado de ser “talarico”, ou seja, saía com mulher casada, na gíria do crime. Marcelo foi, então, até Campinas e esclareceu pessoalmente ao intermediário do “debate” que Juliana era prostituta.

Rodrigo, irmão do cantor, também fala do debate, mas afirma que o motivo do assassinato teria sido o fato dele não ter comparecido ao encontro. Segundo ele, a garota pivô da acusação não era Juliana e sim uma amiga dela, noiva de um ex-policial.

Também em depoimento à polícia, a mesma testemunha disse ter presenciado diversas vezes “vida lokas” indagando sobre o comportamento do Daleste por conta do seu envolvimento com mulheres das comunidades onde fazia shows. Daleste era chamado de “talarico”, afirmou.

Outra referência é a de que Daleste teve envolvimento com a garota de um integrante da facção do Jd. São Fernando. Ele teria sido convocado a um “ar” (reunião do PCC), onde ficou esclarecido que a garota mentiu sobre seu estado civil e, por isso, ele foi perdoado.

Segundo Tribunal

Na declaração de outra testemunha é registrado que houve um “debate” entre os “irmãos” de São Paulo e os de Campinas promovido por L., integrante da facção, a pedido de Rodrigo, irmão de Daleste, cobrando esclarecimento sobre a morte do cantor.

A testemunha afirmou que a conferência ocorreu por celular e apurava se o cantor cometeu “talaricagem” com a ex-prostituta Amanda e o debate concluiu que a morte esteve em acordo com as regras da facção apesar do PCC não ter autorizado o crime. Também disse que o mandante seria Alex Chervenhak, o “Jota”, companheiro de Amanda.

Carolina, irmã de Daleste, confirmou que soube da reunião com o PCC.

Terceiro Tribunal

No dia 14 de julho de 2013, semana seguinte ao crime, Renata — conhecida como a namoradinha de Daleste — recebeu a ligação de um desconhecido que se identificou como membro do PCC que pedia para encontrá-la para um “debate” próximo ao posto do Parque Universitário, perto da sua casa.

Dois homens chegaram em uma Tucson prata e disseram estar a pedido do partido para saber sobre a morte do Daleste. Fizeram ligações e Renata passou a ser interrogada via conferência por pelo menos outros quatro desconhecidos de pontos diferentes de São Paulo.

Ficou claro para ela que a facção não teve participação no crime e também estava investigando. Eles suspeitavam da participação de policiais e fizeram várias perguntas nesse sentido.

O Jota

Alex Chervenhak, vulgo “Jota”, 35 anos na época do crime, foi membro da facção criminosa PCC como ele próprio declarou, mas teria se retirado do grupo três ou quatro anos antes da morte de Daleste. Jota conheceu Amanda em 2009, com quem se relacionou até a separação, pouco antes de nascer o filho do casal em maio de 2013.

Reprodução

Ele admite ter frequentado shows do Daleste em companhia de Amanda e disse que não conhecia o cantor. Em outro momento do depoimento à polícia, afirma que foi ele quem apresentou o cantor à companheira, mas nega saber sobre qualquer traição por parte dela.

Quanto ao “debate” entre integrantes da facção de Campinas e de São Paulo admitiu saber que aconteceu. O motivo do debate seria esclarecer porque o crime foi cometido sem autorização do PCC — o que seria uma violação às regras da facção criminosa — e tentar descobrir a motivação e autoria.

Por último, declarou saber que o funkeiro morreu por “talaricagem”. Acrescentou que o autor do homicídio era alguém muito próximo ao marido traído, mas que o assassinato foi cometido sem que o autor tivesse comunicado o marido enganado.

Alex cumpre pena por tráfico de drogas na Penitenciária II de Presidente Wenceslau.

 

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