dia do povo cigano 24.05.2024 | 14h29

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Acervo pessoal
Em um mundo altamente globalizado, perpetuar raízes e tradições culturais é um desafio, ainda mais quando estigmas e preconceitos ainda persistem contra pessoas de uma etnia. Apesar dos desafios, isso não desanimou a diretora de teatro, atriz e bailarina Jaqueline Roque, 33, que incorporou a cultura cigana em sua vida.
Nascida em Cuiabá e sétima filha de uma família de origem cigana, aos 15 anos teve contato com a dança e decidiu embarcar em uma jornada por autoconhecimento e resgate de suas raízes. Na época, visitou algumas comunidades tradicionais, já que sua família havia perdido contato com os costumes dos antepassados.
“Quando fiquei mais velha, entendi a minha etnia, a responsabilidade do que é pertencer a uma cultura, a um povo. Eu decidi fazer um resgate dessa cultura através da dança, da arte e do meu posicionamento político acerca da minha etnia, do meu povo”, conta.
Casada e mãe de um bebê de dois anos, Jaqueline, além de artista, é também funcionária do Estado e tem um projeto de arte e educação com dança e teatro para crianças em situação de vulnerabilidade social.
A vocação é hereditária. Quando mais jovem, seu pai era artista e trabalhava como palhaço se apresentando em circo e foi músico, chegando a tocar em rádios. Mestiça, filha de pai cigano da etnia calom e mãe não-cigana, Jaqueline explica que quem se casa com cigano é acolhido na comunidade, mas não se torna cigano, pois é algo definido com o nascimento, já que se trata de uma etnia.
“Não tem como a pessoa se tornar cigano, você nasce cigano, assim como, por exemplo, pessoas indígenas, pessoas negras, você não se torna, você nasce assim, porque é sangue. A associação cigana reconhece até a quarta geração, então se você é mestiça até a quarta geração você ainda é considerada uma pessoa cigana. Se o meu filho, por exemplo, não casar com uma pessoa cigana, depois do filho dele a etnia se acaba”, explica.
Quando a família veio para Mato Grosso, a mãe estava grávida de Jaqueline e então se estabeleceram para morar em uma casa, um dos primeiros sinais do apagamento étnico, já que os povos ciganos são conhecidos pelo hábito nômade, entre outros aspectos. Aos poucos a cultura, música e arte foram se perdendo.
Modernidade x tradição
A vida na contemporaneidade, de certo modo, interfere na manutenção dos hábitos e costumes milenares e aos poucos traços importantes de uma cultura vão sendo modificados ou esquecidos.
“É difícil a gente manter os valores culturais em qualquer cultura, principalmente o meu povo, meus pais eram muito ligados à terra, eles são idosos hoje, eles sempre sentem falta. [...] Tem os saberes da medicina natural e isso é mais difícil quando você vem para a cidade. Artisticamente, hoje eu vejo que, ao mesmo tempo que a internet ela traz uma visibilidade para gente, que é o que eu tento fazer e trazer um pouco do estudo da dança relacionado aos ciganos e o teatro também, eu ainda sinto dificuldade, sinto falta dos costumes mais tradicionais, acho que está se perdendo”, comenta.
Assim como os conhecimentos, os próprios hábitos das moradias refletem os contrastes contemporâneos, como, por exemplo, a vivência em comunidades, como Jaqueline pontua. “Antigamente isso era mais forte, como a minha família mesmo. Eles moraram em patrimônios abarracados, ou seja, nas barracas, mas não foi sempre assim. Hoje muitos ciganos da minha etnia não moram mais em barracas, eles já moram em casa e tudo mais”.
Ao contrário do que alguns pensam, os ciganos são uma etnia e não uma religião. Desse modo podem existir ciganos de diferentes denominações religiosas, o que vai diferenciar é como se manifestam ou não sobre as expressões culturais.
“Tem ciganos evangélicos, católicos, têm ciganos espíritas, de várias religiões, e conforme as determinações e a doutrina dessas religiões, eles podem ou não seguir todos os costumes da nossa etnia. [...] Pessoas ciganas são pessoas assim como todas as outras, temos as nossas escolhas de vida individuais”.
Orgulho da cultura
Além do trabalho como funcionária no Estado, Jaqueline também dá aulas de dança cigana e faz leitura do baralho cigano como formas de renda.
As aulas de dança são feitas de forma coletiva em grupos com agendamento prévio. Já os atendimentos de leitura de cartas são feitos de forma online ou presencial, com objetivo de mostrar as coordenadas para a vida, assim como a leitura de mãos. Estas são também formas de resgate cultural que ela pratica em sua vida. Contudo, nem todos os ciganos fazem a leitura de cartas ou de mãos, apesar de ser um dos estereótipos mais recorrentes.
Jaqueline descreve que dentro da própria etnia existem troncos étnicos que podem ser subdivididos em outras ramificações e outras sub-etnias, cada uma com as suas características, dialeto, modo de vestir, modo de dançar, etc.
Além disso, os ciganos não são autorizados a falar com pessoas não-ciganas nos dialetos ou a língua Romani, somente com pessoas da própria etnia, nem mesmo escrever no dialeto próprio.
“Geralmente a gente só fala nosso idioma com pessoas da nossa própria etnia. Isso é uma língua ágrafa, então por segurança, por preservar, a gente não escreve isso em lugar nenhum, você não vai achar isso na internet, ela só é passada de um cigano para o outro. Historicamente foi uma maneira da gente se proteger, de ajudar nas negociações, porque os ciganos geralmente, por exemplo, faziam venda de cavalos, de artesanato e tudo mais”.
O preconceito persiste e precisa ser combatido
Embora muitos avanços tenham sido conquistados, o preconceito contra o povo cigano ainda é sentido a partir de visões distorcidas e estereotipadas dessa etnia.
“Algumas coisas que estão no imaginário popular, até no inconsciente coletivo acabam transferindo para a gente esses preconceitos. Eu já vivi alguns preconceitos aqui em Cuiabá. Uma vez eu estava trajada e estava com o meu filho numa loja aberta de livros e eu peguei alguns livros pra pagar e aí quando eu cheguei no caixa e eu vi que tinha algumas pessoas me olhando e quando eu cheguei no caixa a pessoa não quis me atender, me expôs falando pra eu abrir a minha bolsa porque outro cliente tinha ‘visto’ que eu tinha colocado coisas na minha bolsa. Eu fui atrás dos meus direitos, mas as pessoas acham que a gente vai roubar coisa, roubar crianças, ainda existe muito preconceito”, desabafa.
Para Jaqueline, uma boa forma de combater o preconceito é através do estudo sobre a história da etnia, entender de onde surgiram, como os brasileiros compõem esse povo e suas especificidades.
“Falta informação para que caiam os estereótipos contra pessoas ciganas, como, por exemplo, de que roubamos crianças, coisas, que é ladrão, sujo, são estereótipos muito negativos vinculados ao meu povo e que não condiz com a realidade. [...] “É sempre importante ouvir um cigano falando sobre isso. O que a gente sempre vê, principalmente ao longo da história, são terceiros falando sobre nós, então quando você não está dentro de um povo, você não entende os costumes, vai ter mesmo uma visão distorcida e isso acontece até hoje”.
Dia do povo cigano
O Dia Nacional dos Povos Ciganos foi instituído em 2006, por meio de decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em reconhecimento à contribuição da etnia cigana na formação da identidade cultural brasileira. A escolha da data deve-se ao fato de o dia 24 de maio ser dedicado à Santa Sara Kali, padroeira dos povos ciganos.
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