TRADIÇÃO E AFETO 08.04.2026 | 07h00

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Mel Rodrigues/Montagem
Cuiabá chega aos 307 anos como quem sopra as velas diante do próprio espelho. A cidade que nasceu do ouro, cresceu entre quintais, ruas quentes e largos encontros populares, segue sendo feita não apenas de datas, prédios e marcos oficiais, mas de vozes que a sustentam por dentro. Há uma Cuiabá que não cabe nos livros de aniversário, nem nas homenagens protocolares: ela vive na lembrança das mulheres, na resistência cotidiana, no cheiro doce que sobe de um carrinho no Centro, no copo de suco que refresca a manhã de quem atravessa a Praça da República, no orgulho de pertencer a uma terra que se faz plural.
É dessa cidade íntima, viva e profundamente humana que falam a professora Antonieta Luísa Costa, Luciany Dedr e Devanir Pereira Dantas. Três mulheres, 3 trajetórias, 3 maneiras de contar Cuiabá a partir do que nela permanece: a memória, o trabalho e o afeto.
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Antonieta Luísa Costa
Aos 58 anos, a pedagoga e geógrafa Antonieta Luísa Costa, com pós-graduação em educação integral e educação para relações étnico-raciais, Fundadora e Presidenta do IMUNE (Instituto de Mulheres Negras), carrega no corpo e na fala uma cartografia afetiva da capital. Conhecida como professora Nieta, ela nasceu entre o Araés e o Centro Norte, dois territórios que, em sua lembrança, não são apenas bairros, mas caminhos de formação, pertencimento e ancestralidade.
“Eu sou Antonieta Costa, mais conhecida como professora Nieta. Eu nasci entre o Araés e o Centro Norte. O que dividia o Centro Norte era o Quintal Grande, que hoje é a Avenida Mato Grosso. Do lado do Centro Norte, a família do meu pai, ambos os avós, viviam na Rua Monsenhor Trebaure. Então, meu avô comprou o terreno ali do outro lado, no Araés, e eu circulo entre esses dois caminhos. O Quintal Grande era o espaço onde as famílias se reuniam, porque ali tinha um poço onde todo mundo ia lavar roupa, e as minhas tias contavam muito isso”.
Na lembrança de Antonieta, o antigo Quintal Grande reaparece como um coração comunitário de uma Cuiabá que talvez o progresso tenha coberto de asfalto, mas não conseguiu apagar da memória. Era ali, entre baldes, conversas e convivência, que a cidade popular se reconhecia. E era ali também que pulsava uma presença muitas vezes silenciada pela história oficial: a da população negra cuiabana.
“Porque não era só uma lavagem de roupa, era um encontro de pessoas, amigos, compadres. O que as pessoas não sabem é que tinha uma sociedade negra, mas, como eram empregadas e subalternos, não eram vistos e reconhecidos como parte dessa população. E essa sociedade negra é uma sociedade empoderada”.
Na fala da professora, Cuiabá deixa de ser apenas cenário e vira disputa de memória. Ela recorda que, mesmo excluída dos espaços de prestígio, a comunidade negra inventou seus próprios ritos de reconhecimento, seus concursos, suas referências, sua forma de existir com dignidade dentro de uma cidade que nem sempre a enxergou como parte constitutiva de si.
“Se você vê as fotos antigas, faziam seus próprios concursos de miss. Já que eram excluídos da sociedade, tinham as misses negras, a própria comunidade fazia. Meu pai foi um dos que coordenou, e o Valdemir Taques, que é um cidadão cuiabano que preservou, circula aqui entre o Coxipó do Ouro e preservou muito. Tem muitos referenciais, muitos arquivos, que mostram essa circulação, essa integração da comunidade negra, que foi se incluindo aos poucos”.
Mas é quando fala das mulheres negras que a narrativa de Antonieta ganha a força de uma linhagem. Em sua voz, elas não aparecem como nota de rodapé, mas como mãos que refizeram destinos e empurraram a cidade para outro lugar possível.
“Eu sou fruto disso, eu sou fruto desse grupo de negros e negras, em especial de mulheres negras que refizeram a história, de mulheres negras que, naquele tempo, poderiam ser quituteiras, lavadeiras, porque esse era o projeto para as meninas negras. E o que elas viraram? Elas viraram enfermeiras, revolucionaram, mudaram a história, não só delas, mas das famílias.
Isso mostra o quanto nós somos inteligentes, o quanto tínhamos uma visão de que não deveríamos viver embaixo do patriarcado, e também não deveríamos ser subalternas para a vida inteira”.
Ao falar sobre os 307 anos da capital, Antonieta transforma a celebração em manifesto. Sua homenagem não é apenas elogio: é também reivindicação de pertencimento e justiça.
“Dizer para o povo cuiabano que é possível viver numa sociedade mais justa, mais igualitária e livre de qualquer forma de discriminação, é dizer para a sociedade cuiabana: que bom que nós estamos aqui, que bom que nós somos uma sociedade cuiabana que se completa, que se contempla e que pode se ajudar. Mas, para que isso aconteça, é necessário que a gente compreenda e se sinta parte disso. Nós, negras e negros, somos parte disso, e nós nos sentimos parte disso e queremos abraçar, como a gente sempre abraçou, a nossa comunidade, porque eu não posso falar de Cuiabá sem estar dentro. Então, Cuiabá é nosso pé de todos nós, e juntos nós vamos fazer desse local o melhor local para se viver. Como já é dito, o povo cuiabano é um povo porreta, nós somos carismáticos, nós temos a nossa diversidade, e é nessa diversidade que a gente está transformando a nossa sociedade. Viva Cuiabá, viva o povo cuiabano, viva todos nós que viemos para Cuiabá e daqui fizemos dessa terra o nosso lar. Parabéns, Cuiabá, parabéns, povo cuiabano que entende essa diversidade existente aqui. Axé”.
Luciany Dedr
Se Antonieta devolve à cidade sua memória profunda, Luciany Dedr recorda que uma cidade também se constrói pelo sabor. Há mais de 45 anos, o Churros da Riachuelo adoça o Centro de Cuiabá e ocupa um lugar que já deixou de ser apenas comercial para se tornar afetivo. O ponto, fundado por Manoel Torrilhas e mantido pela família, atravessou décadas acompanhando o passo da cidade e das gerações que cresceram voltando sempre ao mesmo carrinho.
Inicialmente instalado na lateral da Rua Riachuelo, o negócio hoje funciona um pouco mais acima, próximo à entrada lateral, na Rua Galdino Pimentel. O carrinho, antes simples, ganhou estrutura mais moderna e painel de LED, mas continua fiel à vocação de sempre: permanecer.
“A gente já atendeu filho, pai, mãe e avós, tradição que perpassa por gerações”. Há algo de profundamente cuiabano nessa permanência. Em uma cidade que muda, há pontos que viram bússola afetiva. O churros, nesse caso, não é apenas doce: é memória servida quente, reencontro embrulhado em papel, rotina que resiste.
Luciany conta que a receita permanece em segredo, guardada como se guardam as coisas preciosas de família. Mas o sucesso, diz ela, talvez esteja no essencial: a simplicidade bem feita, a massa sequinha, o sabor que não se repete em outro lugar.
“O churros é bem saboroso, a massa é sequinha, então teve uma aceitação muito boa aqui em Cuiabá. Inclusive, tem pessoas que já foram para fora do país e experimentaram churros e dizem que não é igual ao churros daqui de Cuiabá.”
Hoje, o Churros da Riachuelo funciona de segunda a sábado, das 9h às 19h. O cardápio também cresceu com o tempo. O que começou apenas com chocolate e doce de leite agora reúne seis recheios: os dois tradicionais, além de goiabada, Nutella, Ninho e beijinho. Alguns são preparados artesanalmente, e a mistura de Ninho com Nutella figura entre as preferidas da casa.
Na comemoração dos 307 anos da capital, Luciany oferece à cidade um gesto simples e certeiro: o convite para continuar se reconhecendo naquele mesmo ponto de sempre.
“Quero parabenizar Cuiabá pelos seus 307 anos! E convidar toda a população cuiabana para vir comer o churros. Venham, estamos sempre aqui no mesmo ponto, esperando para adoçar a vida de vocês!”
Devanir Pereira Dantas
Também no Centro, outro ponto ajuda a contar a cidade por um caminho distinto: o do alívio, do frescor e da rotina que começa cedo. Aos 59 anos, Devanir Pereira Dantas relembra como nasceu, há 26 anos, a ideia de montar um carrinho de sucos na Feira de Artesanato, na Praça da República. A inspiração veio de uma cunhada e amiga, que observou a presença de vários carrinhos semelhantes em Rondonópolis e percebeu que, diante do calor extremo cuiabano, a ideia poderia florescer ali com naturalidade.
Floresceu. E virou tradição: Sucos Tutti. “Fomos as primeiras pessoas a colocar ponto de suco na rua”.
Há um tipo de inteligência popular que entende a cidade antes mesmo dos mapas e estatísticas: basta olhar o sol, a pressa, o centro pulsando desde cedo, e perceber do que as pessoas precisam. O suco, nesse caso, não é só mercadoria, mas resposta. O ponto de Devanir se firmou no imaginário cuiabano como um pequeno oásis urbano, um hábito cotidiano em uma cidade acostumada a temperaturas altas e à convivência direta com a rua.
No início, tudo era feito à mão. Depois veio a máquina que descasca e filtra a laranja sem contato com o suco, modernizando a produção sem apagar a essência do atendimento que fidelizou a clientela. “O pessoal gostou muito e aí vieram outros carrinhos de suco também, mas o pessoal fala que aqui é o melhor!”
O ponto funciona de segunda a sexta-feira, das 6h30 às 17h30, e aos sábados, das 6h30 às 13h. É uma rotina longa, dessas que se confundem com o próprio ritmo da cidade. E embora se defina como “pau rodado”, Devanir fala de Cuiabá como quem fala de casa. Casou-se com cuiabano, teve filhos e netos cuiabanos, e fincou ali o desejo de permanecer.
“Eu só tenho a agradecer ao povo cuiabano, porque eu sou pau rodado, mas, com muito orgulho, casei com cuiabano, tenho filhos e netos cuiabanos, então sou apaixonada por Cuiabá, pretendo ficar o resto da minha vida. Então, só tenho a agradecer a Cuiabá pelo acolhimento e dizer parabéns pelo aniversário. E venham para o Sucos Tutti, tomar suco aqui, que é o melhor!”
Aos 307 anos, Cuiabá se revela nessas histórias como uma cidade de muitas fundações. Não apenas a do ouro, não apenas a dos mapas, não apenas a das versões oficiais. Mas a cidade erguida pelas mulheres que insistiram em existir com dignidade, pelos pequenos comércios que atravessaram décadas, pelos gestos cotidianos que deram identidade às ruas, pelos afetos que ficaram quando tanta coisa passou.
Entre o Quintal Grande de Antonieta, o carrinho de churros de Luciany e o ponto de suco de Devanir, existe uma mesma linha invisível: a de uma Cuiabá que se sustenta na memória partilhada e na capacidade de transformar sobrevivência em legado. Talvez seja essa a mais bonita definição de aniversário para uma cidade: não apenas contar os anos, mas reconhecer quem ajudou a torná-la viva.
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