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presídio feminino de Cuiabá 23.09.2018 | 08h00

Detentas relatam como é dividir o tempo entre trabalho e cursos

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Chico Ferreira

Chico Ferreira

"O Brasil que a gente quer tem mais wi-fi, mais celular e menos revista". O recado é de uma detenta que conseguiu se aproximar da reportagem do , aos risos, em um dia de visita na Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá. Era uma tarde de setembro, a chuva do caju ainda não havia caído e o calor era amenizado por ventiladores espalhados pelo teto nas salas de costura e refeitório, onde as presas se aglomeravam para fazer os cursos disponíveis da unidade.

 

Nos últimos 3 meses, um grupo de mulheres foi liberado do enclausuramento dos raios, onde elas passam a maior parte dos dias, para fazer os cursos de costura e confeitaria ofertados pela direção, em parceria com a Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia (Secitec). Cerca de 50 mulheres são encaminhadas para duas salas. Na primeira, tecidos, máquinas, linhas e agulhas estão simetricamente alinhados. Na outra, um fogão industrial, um forno e uma enorme coifa se dispõe para uso das detentas. 

 

A reportagem foi chamada para conhecer o presídio após a publicação de uma matéria em que familiares acusaram os agentes prisionais e a própria direção da unidade de agir de forma truculenta durante as revistas de rotina. Em uma carta divulgada pelas redes sociais, elas apontam que o spray de pimenta é utilizado com frequência. 

 

Leia também - Presas denunciam maus-tratos com xingamentos, tiros e bombas de gás

 

Chico Ferreira

Detentas Ana Maria do Couto May

 

 

Suely do Espírito Santo, 39, e Fabiana Rodrigues Siqueira, 21, se dispuseram a relatar, sob a supervisão constante da assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), como elas passam os dias dentro das grades. Elas fazem parte do grupo que passou os últimos meses confeccionando uniformes de cor roxa e amarela para a unidade. 

 

Quando questionadas sobre como é o dia-a-dia na instituição, elas se entreolham e dizem, receosas: "Como é que eu vou dizer? Essas coisas eu não sei explicar pra ela. Como que fala? Ah, não é bom. É muito procedimento. É um dia que não tem como fazer nada, é trancado". 

 

A mais velha, Suely, está na penitenciária desde 2014. A reportagem foi orientada, com antecedência, a não perguntar o porquê. Quando estava livre, suas 24 horas eram divididas entre a família e o serviço de diarista. Agora, já fez curso de costura, estudo bíblico e salgado. A previsão é que ela saia em outubro deste ano. Os planos para o futuro consistem em vender os salgados que aprendeu a fazer dentro da unidade prisional.

 

Fabiana tinha apenas 19 anos quando foi detida. Ela completa 3 anos em regime fechado em janeiro de 2019, mas está no Ana Maria do Couto May há apenas 3 meses. Ela não recebe visita da família desde que veio transferida de Colíder, já que a mãe mora distante, em Peixoto de Azevedo, há 691 km da Capital.

 

Chico Ferreira

Detentas Ana Maria do Couto May

 

"Eu acordo às 5h para aprontar, aí às 6h eles destrancam a gente pra trabalhar. Lá na frente trabalham 3, eu e mais duas. E a gente limpa e cozinha. A gente termina e entra pro raio umas 9h. Lá a gente só faz artesanato mesmo e como eu não gosto de crochê fico o tempo livre na cela. A gente não tem hora pra dormir, só tem hora pra acordar", disse.

 

Durante a conversa, o bolo que estava sendo preparado na aula de confeitaria é distribuído. As detentas se dispersam e saem para ganhar cada uma um pedaço. O glacê que enfeita a cobertura de abacaxi se dissolve nos guardanapos. A dispersão é a deixa para reportagem ser convidada a sair. A agente prisional destranca a cela do refeitório, localizado do outro lado do corredor. Lá, algumas mulheres organizam os materiais que foram utilizados na confecção do bolo.  Enquanto isso, outras brincam, sentadas na mesa.

 

"Ei! Não pode entrar com celular aqui não", adverte uma das detentas à reportagem. "Eu te dou R$ 3 mil por ele, vamos negociar?", pede, brincando. Os ânimos já não podem ser contidos pela supervisão. As mulheres conversam entre si, empolgadas com a visita.  

 

A última a ser entrevistada é Edivânia Soares, 30, que está detida há 1 ano e 9 meses. Ela era revendedora de roupas e cosméticos e aprendeu a fazer bolos e bombons no curso de confeitaria dentro da penitenciária. Hoje, monetizou o aprendizado e vende os produtos.   

 

Chico Ferreira

Detentas Ana Maria do Couto May

 

"Eu gostei tanto do curso que até mesmo lá no raio estou fazendo doce para vender. Eu pretendo continuar porque depois que comecei a fazer passei a ter uma renda boa. Eu produzo até por encomenda. Faço e já entrego. Inclusive, até mesmo os que vêm visitar estão levando para rua", disse. 

 

Agentes penitenciários esperam em fila ao lado de fora da sala. A reportagem conversou por menos de 2 minutos com Edivânia e foi advertida a sair. "Vai ter um procedimento, precisamos ir agora".

 

Repórter e fotógrafo são retirados às pressas. Na espera para a abertura da cela, uma detenta conta que vai casar em breve. Questionada a dar mais detalhes, ela diz que espera por aprovação, mas não houve tempo de perguntar aprovação de quê. Também não foi possível saber o nome dela. 

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