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DIREITO DE RECOMEÇAR 24.05.2026 | 17h00

Divórcios caem, mas seguem comuns e 'sem tabu' em Mato Grosso

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Helena Werneck - Especial para o GD

redacao@gazetadigital

João Vieira

João Vieira

Houve um tempo em que separar era quase uma sentença pública. O casamento, mais do que uma escolha afetiva, era visto como destino permanente, sustentado pela lei, pela moral e pelo olhar alheio. Hoje, embora ainda envolva dor, reorganização familiar e decisões difíceis, o divórcio deixou de ser escândalo para se tornar uma possibilidade real na vida de muitos casais.

 

Em Mato Grosso, os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Estado está entre os menores índices de divórcio do país, mas a prática segue presente no cotidiano. Foram registrados 3.584 divórcios em 2024, sendo 2.271 pela via judicial e os demais realizados diretamente em cartórios. A taxa foi de 1,3 divórcio para cada mil pessoas de 20 anos ou mais, abaixo da média nacional, de 2,7.

 

No Brasil, o número de divórcios caiu 2,8% após 3 anos de alta, chegando a 428.301 registros em 2024. Ainda assim, o volume mostra que a dissolução do casamento já faz parte da dinâmica social contemporânea: para cada 100 casamentos, ocorreram cerca de 45,7 divórcios. A duração média das uniões também diminuiu, passando de 16 anos, em 2010, para 13,8 anos.

 

Para a psicóloga Irani Marangão Ferreira, especializada em terapia de casais, os números não falam apenas sobre rupturas, mas sobre uma mudança profunda na forma como as pessoas entendem o amor, a convivência e os próprios limites.

 

“Eu acredito que a maioria dos divórcios no Brasil acontece porque as pessoas mudaram a forma de enxergar os relacionamentos. Hoje existe menos tolerância para relações infelizes, frias ou desgastadas. Além disso, muitos casais entram no casamento com expectativas muito altas sobre amor e felicidade, e acabam tendo dificuldade para lidar com os desafios naturais da convivência”, avalia.

 

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Do casamento indissolúvel ao direito de recomeçar

A normalização do divórcio contrasta com um passado não tão distante. Até 1977, o casamento civil no Brasil era tratado como indissolúvel. A legislação permitia o chamado “desquite”, que separava os corpos e encerrava deveres conjugais, mas não dissolvia o vínculo matrimonial. Na prática, a pessoa desquitada não podia se casar novamente.

 

A mudança começou com a Emenda Constitucional nº 9, de 1977, que abriu caminho para a dissolução do casamento. No mesmo ano, a Lei nº 6.515, conhecida como Lei do Divórcio, passou a regulamentar os casos de dissolução da sociedade conjugal e do casamento.

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Mesmo assim, o processo ainda era mais burocrático do que hoje. A simplificação veio décadas depois, com a Emenda Constitucional nº 66, de 2010, que retirou a exigência de separação judicial prévia e consolidou o entendimento de que o casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio.

 

Se antes o fim de um casamento carregava o peso da vergonha, hoje ele é entendido, em muitos casos, como uma decisão de saúde emocional, autonomia e reorganização da vida.

 

“Na minha visão, faz muito mais parte de uma transformação social do que necessariamente um problema. A forma de se relacionar mudou ao longo do tempo e continua mudando. Hoje as pessoas buscam mais conexão emocional, diálogo, individualidade e felicidade dentro da relação. Ao mesmo tempo, existe menos pressão para permanecer em casamentos infelizes apenas por obrigação social”, explica Irani.

 

Quando a rotina também separa

A psicóloga observa que a vida moderna também tem cobrado um preço alto das relações. Jornadas extensas, excesso de responsabilidades, estresse e falta de tempo de qualidade criam distâncias silenciosas. Muitas vezes, o casal não rompe de uma vez: vai se perdendo aos poucos.

 

“Também vivemos uma rotina mais acelerada, com menos diálogo, mais estresse e menos tempo de qualidade juntos. Ao mesmo tempo, as pessoas estão mais conscientes sobre saúde emocional e passaram a entender que um relacionamento precisa ter respeito, parceria e conexão, e não apenas obrigação de permanecer juntos”, afirma.

 

Na leitura da especialista, o divórcio não deve ser tratado apenas como falência do casamento. Em muitos casos, ele revela uma sociedade que passou a questionar relações mantidas somente pela aparência, pelo medo ou pela pressão familiar.

 

“Então eu vejo esse movimento como um reflexo das mudanças da sociedade, dos papéis dentro do relacionamento e da forma como as pessoas enxergam o amor e a convivência”, completa.

 

Filhos, guarda e novos arranjos familiares

As mudanças também aparecem nas decisões sobre os filhos. Pela primeira vez na série histórica do IBGE, a guarda compartilhada superou a guarda unilateral materna nos processos judiciais de divórcio. Em 2024, a guarda compartilhada representou 44,6% dos casos, enquanto a guarda concedida apenas à mãe ficou em 42,6%.

 

O dado aponta para uma reorganização das responsabilidades parentais após a separação. O fim do casamento, cada vez mais, não significa o fim da convivência familiar, mas a construção de novos formatos de cuidado, presença e corresponsabilidade.

 

Nem toda crise é fim

Apesar da maior aceitação social do divórcio, Irani destaca que a decisão exige cuidado. Para ela, é importante diferenciar a ausência de amor do acúmulo de dores não tratadas.

 

“Minha orientação é que o casal tente entender primeiro se o problema é a falta de amor ou o acúmulo de dores, mágoas e dificuldades que não foram bem resolvidas ao longo do tempo. Muitos casais pensam em divórcio no auge do desgaste emocional, sem conseguir mais se ouvir com clareza. Por isso, antes de uma decisão definitiva, é importante abrir espaço para diálogo, acolhimento e, se possível, buscar ajuda profissional”, orienta.

 

Segundo a psicóloga, há crises que anunciam o fim, mas há outras que apenas revelam a necessidade de reconstrução.

 

“Nem toda crise significa fim. Às vezes ela mostra que a relação precisa de ajustes, reconexão e novas formas de convivência. Mas também é importante entender que permanecer junto só faz sentido quando ainda existe respeito, disposição dos dois e vontade de construir algo melhor”, pontua.

 

O amor também exige manutenção

Para Irani, a ideia de casal perfeito precisa dar lugar a uma visão mais realista das relações. O amor, sozinho, nem sempre sustenta a convivência. É preciso presença, escuta, admiração e disposição diária.

 

“Eu acredito que o segredo de uma boa relação não é a ausência de problemas, e sim a capacidade do casal de conversar, se respeitar e escolher um ao outro mesmo nas fases difíceis. Relacionamentos saudáveis são construídos no dia a dia, com parceria, admiração, carinho e disposição para ajustar o que for necessário. Não existe casal perfeito, existe casal que aprende a crescer junto”, afirma.

 

No fim, os dados do IBGE mostram uma queda estatística. Mas, para além dos números, o divórcio continua revelando algo maior: a sociedade mudou. O casamento deixou de ser uma prisão simbólica e passou a ser, cada vez mais, uma escolha que precisa fazer sentido para os dois lados.

 

“Não deixem a relação chegar no limite para começarem a se ouvir. Pequenos diálogos, demonstrações de carinho e atenção no dia a dia fazem muita diferença. E quando a crise acontecer, porque ela pode acontecer em qualquer relacionamento, lembrem-se de que pedir ajuda não é sinal de fracasso, e sim de maturidade”, conclui Irani.

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