QUASE 40 ANOS 27.09.2019 | 14h30

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João Vieira
A frase “são meninos que precisam de carinho, uma mão que passe sobre seus olhos” de Jorge Amado, no livro Capitães de Areia, empresta sentido para a Instituição Fé e Alegria, que acolhe e ensina inclusão para pessoas com deficiências em situação de vulnerabilidade econômica e social. Com apoio da família, funcionários e voluntários, a instituição resiste há quase 40 anos.
Usando o bordão “educação popular e promoção social na construção de sociedades justas e fraternas” como referência, a Fé e Alegria nasceu na Venezuela, com o trabalho do padre jesuíta José María Vélaz. Em Cuiabá, foi fundada por devotos de São Benedito, o santo mais popular na capital.
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Completando 38 anos atualmente no bairro Planalto - um bairro na periferia, que tinha muitos deficientes que não estavam indo a escola -, a instituição atende cerca de cem pessoas com deficiências. A maioria é formada por adultos, que chegam crianças e por ali estreitam laços para além do convívio familiar.
Para resistir, a instituição recebe, além de doações, um termo de fomento do Estado, que repassa cerca de R$ 125 por atendido. A Fé e Alegria têm segurado às pontas, mas precisa de um Estado “mais presente”, conforme explica a coordenadora Maria Ivone Veiga.
“Quando falamos que não é tão presente, ainda é no sentido de que tem que nos ver como uma parceria, não como um ‘rival’. Os movimentos só existem porque acreditam que o estado precisa de ajuda”, conta Ivone.
O valor de R$ 125, por exemplo, chega a ser insuficiente, visto que muitos atendidos ficam integralmente na sede. “R$ 125 não é o valor que gastamos com o atendido nosso. A per capita chega a ser de R$ 400 a R$ 500 por mês. Essa per capita que nós gostaríamos de ter uma parceria maior com o estado ou município”, calcula.
Quanto ao voluntariado, Ivone diz que são esporádicos, e a maioria entra em contato em dias especiais, como o Dia das Crianças, por exemplo. Toda a ajuda é bem-vinda, assim como pessoas dispostas a trabalhar em ações.
Autonomia e inclusão
Por meio de oficinas de arte, dança, cozinha experimental e leitura os atendidos vão buscando sua autonomia. De acordo com a coordenadora, muitos dos deficientes ficam restritos apenas ao convívio familiar. Aos poucos, eles vão se integrando, e até mesmo alguns conseguem arranjar trabalho.
“Até um tempo atrás, a maioria das famílias tinha suas pessoas com deficiência em casa e não saiam, não saiam para um restaurante, pro shopping. Hoje não, nós temos alunos que vão e vêm sozinhos e isso é o diferencial, isso é o importante. O fato deles pegarem o ônibus sozinhos, isso é motivo de alegria”, disse.
Muitas histórias também são transformadoras para quem acompanha de perto os atendidos. Bruna compartilha que uma mãe dos alunos tirava férias e não o levava para viagens. “‘Como vou colocar meu filho dentro de um ônibus pra viajar?’ Então ele sempre ficava em casa com alguém”, conta. Após o acompanhamento na Fé e Alegria, a mãe levou o filho para uma viagem em família no fim de ano. “São essas pequenas situações que a gente percebe, tanto a questão pra sociedade como pra família”.
A atendida Marcilene da Silva Miranda, de 31 anos, vai todos os dias de ônibus sozinha para a instituição. Ela estudou em outra escola, que não a cobrava tanto para aprender de verdade. “Nas outras escolas, não tinha essa coisa fazer colagem, fazer passeio e sair nas ruas. Antes eu não tinha isso, agora tenho e estou muito feliz”, recorda.
Marcilene até comenta do empenho da professora Rita. “Antes não tínhamos uma rotina, de chegar e fazer lanche ou colar cartaz. Agora isso está ficando grande. A Rita pega muito nesse negócio de aprender, antigamente não era assim, não tinha esse negocio de pegar no pé e aprender”.
Dia do deficiente
Na sala com cortinas de chita, os alunos da instituição assistem a uma oficina, em comemoração ao dia 21 de setembro, que celebra o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência. Quando ouvem a data, todos batem palma e gritam, orgulhosos.
A assistente social Bruna Bólico explica a importância da data, que é um dia para se refletir no que se tem avançado em termos de políticas públicas e sociais para as pessoas com deficiência.
“Ouvimos falar muito em inclusão, que toda criança tem direito a uma educação de qualidade e isso está preconizado em lei. Na década de 80 pra cá se avançou muito em legislações. Temos o estatuto da pessoa com deficiência, temos a lei que garante a redução e a isenção do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), tem a Lei da Inclusão, o transporte público gratuito, tem a meia-entrada em shows, enfim. Mas nem tudo isso se garante na prática”, alerta.
Amigos do Fé e Alegria
Quem quiser se tornar um amigo pode fazer doação de qualquer espécie - seja dinheiro, alimentos, móveis, ou mesmo de seu tempo -. Existe também a possibilidade de montar ações e projetos em conjunto com a Fé e Alegria.
Acompanhe as ações e eventos da Fé e Alegria no Facebook e o site.
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Milho Disponível
R$ 66,90
0,75%
Algodão
R$ 164,95
1,41%
Boi à vista
R$ 285,25
0,14%
Soja Disponível
R$ 153,20
1,06%
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