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Cuiabá, Sábado 27/06/2026

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acolhimento e oportunidade 27.06.2026 | 12h00

Mais de 8 mil imigrantes encontram em Cuiabá a chande do recomeço e um novo lar

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Laisa Stofel

laisa@gazetadigital

Divulgação Scalabrinianos

Divulgação Scalabrinianos

O Dia do Imigrante, celebrado na quinta-feira (25), traz à tona o papel de Cuiabá como solo de recomeços. O relatório oficial da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMSocial), de maio deste ano, mostra que a capital mato-grossense abriga atualmente 8.150 estrangeiros no Cadastro Único. Desse total, a comunidade venezuelana lidera de forma disparada com 5.682 residentes, seguida pelo Haiti (1.281), Cuba (305), Bolívia (233) e Colômbia (123).

 

A inserção dessa população ocorre prioritariamente via rede pública. Hélida Vilela de Oliveira, da Secretaria Municipal de Assistência Social, explica que o fluxo de atendimento é feito de forma descentralizada nas 14 unidades do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) da capital.

 

“Os migrantes, por meio do Cadastro Único, recebem todos os benefícios que assistem os brasileiros. Então, hoje nós dispomos de BPC, Bolsa Família e outros benefícios, como Cesta Básica, por meio do benefício eventual para garantir a segurança alimentar”, explica.

 

Leia também - Parada LGBTQIA+, shows, teatro e muito mais em Cuiabá; confira programação.

 

Geograficamente, o relatório técnico aponta forte incidência de famílias estrangeiras nas periferias e áreas de maior vulnerabilidade.

 

“Os venezuelanos estão, em sua grande maioria, na região do São José e do Pequiseiro, e os haitianos no Parque Cuiabá, Terra Prometida e próximo ao 1º de Março”, detalha Hélida.

 

Para quem chega sem moradia, o principal suporte inicial é o Centro Pastoral para o Migrante (CPM), parceiro histórico do município desde 1980. À frente da instituição, o padre Mauro Verzeletti explica que a instituição atende hoje 28 nacionalidades e também vítimas de trabalho análogo à escravidão no estado. Ele traz uma visão macro sobre como o perfil de acolhimento da cidade mudou ao longo do tempo e destaca que o centro funciona tanto como moradia definitiva quanto como ponto de transição para quem busca recomeçar.

 

Divulgação Centro Pastoral para o Migrante (CPM).

Acolhimento e direcionamento de imigrantes

 

“Muitas vezes chegam para se estabelecer aqui ou vão de passagem para outros lugares no Brasil, no sul do Brasil, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro. Então, sendo um lugar de acolhimento, também um lugar de passo para a população migrante e refugiada. O sonho do migrante é muito importante, porque ele vem para estabelecer-se e construir um futuro para ele e para sua família”, afirmou o padre em entrevista ao .

 

Ele alerta, porém, para o fato de que a falta de repasses e verbas públicas gera sérios vazios para essa camada social.

 

“Uma das grandes dificuldades que a gente tem hoje aqui no estado de Mato Grosso é a falta de recursos econômicos. Porque, se a gente tem recursos econômicos, pode ajudar cada vez mais e melhor para restituir a dignidade das pessoas imigrantes, solicitantes de asilo, refúgio e dos deslocados internos também. Os recursos são fundamentais para dar uma atenção humana integral no marco do direito nacional da Constituição da República do Brasil. Ainda existem vazios por parte dos estados e dos municípios para que realmente coloquem recursos para dar uma atenção integral a essa população”, destacou.

 

Por trás dos dados oficiais, existem histórias como a da musicista venezuelana Yndira Gabriela Fleitas Villarroel, que ilustram os desafios práticos da adaptação. Formada pelo renomado projeto “El Sistema” na Venezuela, ela veio para o Brasil em 2012 em busca de segurança. Em 2017, mudou-se para Cuiabá a convite do Instituto Ciranda para dar aulas de música, onde enfrentou um choque cultural com o clima e as variações linguísticas regionais.

 

“Os diversos sotaques da capital mato-grossense e dos arredores chamaram minha atenção. Alguns, como o poconeano, demandaram maior atenção, pois meus alunos de música falavam muito rápido, cortando as palavras”, relembra Yndira.

 

Para alcançar a estabilidade, Yndira recorreu a “bicos” na limpeza até tomar posse, em 2025, num concurso público federal na UFMT. A trajetória da musicista também revela a face dura da discriminação no auge da dispersão venezuelana após 2018.

 

“Escutei comentários xenofóbicos, especialmente relacionados a temas políticos. Tenho me blindado, já que, em um período, ser venezuelana dentro de um transporte público era muito perigoso”, desabafa.

 

Hoje, prestes a completar uma década em Cuiabá, ela se diz em casa e já incorporou expressões como “guri” e pratos locais como a farofa de banana ao seu dia a dia. Com o falecimento de seus pais, não planeja retornar ao país natal.

 

“Reconheço Cuiabá como minha casa, me identifiquei com as mangueiras, com as pamonhas das estradas, com o peixe frito”, resume.

 

Divulgação MultiCulturas

MultiCulturas - Cores Brasileiras em Vozes Migrantes 2023

MultiCulturas - Cores Brasileiras em Vozes Migrantes.

Mais do que reconstruir a própria vida, Yndira transformou sua bagagem em uma ponte coletiva. Ela é a idealizadora e diretora artística do MultiCulturas - Cores Brasileiras em Vozes Migrantes, um projeto de extensão viabilizado pelo Edital Viver Cultura da SECEL/MT, em parceria com a Pró-Reitoria de Cultura, Extensão e Vivência da Universidade Federal de Mato Grosso (Procev) e o Coral da UFMT.

 

Em sua terceira edição, o projeto homenageou mulheres artistas locais e imigrantes, em que promoveu oficinas que culminaram na criação do Coral Vozes Migrantes. A iniciativa promoveu apresentações marcantes no Teatro da UFMT, democratizando o acesso à cultura e unindo diversas nacionalidades por meio da música.

 

No mesmo projeto cultural, a música divide espaço com a trajetória do artista moçambicano Hermínio N., que chegou à capital em 2017 a convite do Instituto de Mulheres Negras (Imune) para ministrar oficinas em escolas e quilombos. Diferente de Yndira, ele conta que encontrou facilidades na chegada graças ao idioma comum e às semelhanças culturais.

 

“Não tive grandes desafios, pois Moçambique e Brasil têm quase os mesmos costumes culturais e gastronômicos, o que foi fundamental para me enquadrar”, afirma o produtor, que classifica o povo cuiabano como “hospitaleiro e alegre”.

 

Para Hermínio, a cidade foi a porta de entrada para a educação formal, uma vez que ele concluiu os estudos básicos e se graduou em produção cultural pela MT Escola de Teatro, em parceria com a Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), por meio de políticas públicas educacionais para migrantes. Hoje, ele vê o Brasil como seu “segundo lar”, onde mantém residência fixa e mistura suas raízes africanas com a identidade local por meio da arte.

 

“O Multicultura é um projeto que nos dá a liberdade de expressarmos as nossas culturas e alegrar o povo cuiabano”, conclui.

 

Para o padre Mauro Verzeletti, esse intercâmbio cultural e humano exige, acima de tudo, o combate ao preconceito e a consolidação de uma rede de proteção social afetiva.

 

“Acolher, proteger, promover e integrar a população migrante, refugiada e deslocada interna é fundamental, porque eles, como migrantes, vieram morar entre nós. E agora a gente tem que acolher, superar toda a discriminação, ódio, racismo e xenofobia contra essas pessoas, porque são seres humanos. E todo ser humano tem dignidade, tem direitos, e eles vêm buscar a vida”, enfatiza.

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