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40 anos de arte 09.08.2026 | 15h00

Odete Venancio retrata a essência, a cultura e a memória de MT

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Helena Werneck - Especial para o GD

redacao@gazetadigital

Acervo Pessoal

Acervo Pessoal

Antes de ocupar paredes, viadutos, galerias e acervos, a arte chegou à vida de Odete Venancio como uma descoberta inesperada. Foi quase um chamado. Nascida em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, em 1961, ela encontrou em Mato Grosso não apenas uma morada, mas o território onde sua identidade artística ganhou forma, cor e movimento. A relação se tornou tão profunda que, em 2009, recebeu oficialmente o título de cidadã mato-grossense.

 

A história começou longe dos ateliês formais. Entre o fim dos anos 1980 e o início da década de 1990, Odete trabalhava na Companhia de Saneamento do Estado de Mato Grosso quando uma feira organizada para revelar talentos entre os funcionários abriu diante dela uma janela que jamais voltaria a se fechar.

 

“Eu comecei a pintar, de fato, em Mato Grosso. Trabalhava na Companhia de Saneamento do Estado e houve, naquela época, uma feira para descobrir talentos. Havia mais de dois mil funcionários e, no meio deles, tinha pintura, artesanato, culinária, tudo o que você pode imaginar de talento mato-grossense e de quem tinha vindo de fora para viver aqui. Foi ali que descobri pessoas que pintavam transparências de vidro, cajus, águas e outras coisas. Fiquei deslumbrada, porque eu não tinha acesso nem experiência com tinta. Foi assim que descobri que gostava muito das artes visuais”, recorda.

 

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O primeiro encontro com a tinta a óleo teve algo de encantamento e perigo. Orientada por um colega que desenhava e pintava, Odete comprou materiais, levou as tintas para casa e mergulhou na experiência sem conhecer os cuidados exigidos pelos produtos.

 

“Ele falou da terebintina, das marcas das tintas. Fui adquirir algumas e comecei a fazer um trabalho em casa. Fiquei intoxicada na primeira vez. Passei uma noite sem dormir por causa daquela experiência. E críticos de arte e colecionadores ficaram loucos pelo trabalho que eu tinha feito naquele dia. Era uma flor, do meu jeito, com tinta a óleo. A partir dali, nunca mais parei. Comecei a experimentar as tintas e os desenhos, porque já tinha certa familiaridade com desenho. Foi ali que começou toda a minha trajetória nas artes visuais”, conta.

 

Para Odete, a arte nunca foi uma atividade periférica. Entrou no centro de sua vida. Na cooperativa que ajudou a fundar na antiga Sanemat, ela contratou um professor para ministrar aulas de pintura. Foi nesse período que conheceu Carlinhos Viana, apontado pela artista como um dos primeiros responsáveis por impulsionar seu caminho técnico.

 

“Eu sempre fui muito dinâmica nas coisas em que entrava de cabeça. O Carlinhos Viana foi o primeiro que me deu aquela alavancada no que eu queria fazer. Comecei a ter experiência com tinta acrílica e, de fato, com todos os tipos de tinta que apareciam na minha frente. Até que um dia ele falou: ‘A aluna superou o mestre’. Eu procurava professores para aprender novas técnicas e alguns diziam: ‘Você sabe mais do que eu’. Eu pensava: como posso saber mais, se eu não estudei?”, relembra.

 

Artista de profissão

O tempo transformou a artista autodidata em pesquisadora, professora e profissional graduada. Odete concluiu a Licenciatura em Artes Visuais pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), com registros acadêmicos de sua formação em 2019, embora a atuação como professora de arte seja citada em seu currículo desde 2003. Ao longo dos anos, também conduziu oficinas de pintura, desenho, colagem, reciclagem e artes plásticas, além de trabalhar com curadoria, restauração e preservação de obras.

 

Sua produção cresceu como uma árvore de raízes profundas no chão cuiabano. Cururu, siriri, rasqueado, viola de cocho, povos originários, casarões, ruínas, natureza e personagens populares passaram a habitar telas e projetos. A obra de Odete não se limita a representar Mato Grosso: procura preservar seus gestos, sons, memórias e marcas antes que sejam apagados pelo tempo.

 

“Fui selecionada como mestre de cultura popular por conta das obras que faço sobre a cultura, a dança do cururu, do siriri, do rasqueado e as violas de cocho. Também fui conselheira de cultura por duas vezes, crítica de arte e me graduei em Artes Visuais. Fui a muitos lugares do interior para fazer murais e ministrar oficinas por meio de projetos. Se eu for mensurar tudo aquilo por onde passei, é muita coisa”, afirma.

 

A trajetória da artista ultrapassa a produção individual e alcança a organização cultural. Odete presidiu a Associação Cuiabana Belas Artes (Acuba), teve atuação ligada à Federação de Entidades Culturais de Mato Grosso e representou o estado como delegada da cadeia produtiva das Artes Visuais na II Conferência Nacional de Cultura. Sua presença em conselhos, fóruns, associações e projetos ajudou a ampliar o espaço das artes visuais na vida pública mato-grossense.

 

Entre os projetos registrados oficialmente estão Vagando em Cores, de 2006; Nosso Grito de Alerta, de 2007; Sonhos em Cores, de 2008; Conexões e Cores Vibrantes, de 2010; Espelhos, de 2011; Esplendor em Cores, de 2013; e Riquezas de Mato Grosso, de 2014. Mais recentemente, Odete foi classificada em editais com Originários II — Catalogando a História da Arte dos Povos Originários de Mato Grosso e Entre Ruínas e Glamour: O Ciclo dos Casarões Cuiabanos. Seu nome também aparece entre os artistas presentes no acervo do Museu de Arte de Mato Grosso.

 

Em 2021, a obra Por Um Fio levou sua pintura para além da tela tradicional. O trabalho, apresentado em forma de móbile, reúne cabaças pintadas com imagens e frases de teor social. A criação foi selecionada para o 26º Salão Jovem Arte e revela uma característica recorrente em sua produção: a capacidade de fazer com que materiais simples carreguem questões humanas complexas.

 

Muitas de suas obras atravessaram fronteiras. Algumas foram levadas para São Paulo, Rio de Janeiro, países europeus e outros destinos por colecionadores. Parte, entretanto, permanece guardada em seu acervo, não por ausência de valor, mas porque, segundo Odete, toda obra precisa encontrar quem verdadeiramente possa recebê-la.

 

“Já produzi várias obras de arte, tanto por encomenda quanto por inspiração. Vendi muito, mas ainda tenho muitas guardadas no meu acervo. Você vende algumas, mas outras ainda não encontraram o parceiro daquela obra. Então, acaba guardando para uma exposição ou mesmo para deixar de herança aos seus herdeiros. Muitas foram para a Europa e para vários lugares do Brasil”, relata.

 

Em determinado momento da carreira, a fé também redefiniu os caminhos de sua pintura. Conhecida pela produção de arte sacra, Odete decidiu deixar o gênero e seguir por outras linguagens, mesmo diante da insistência de colecionadores.

 

“Quando me converti verdadeiramente a Cristo, passei a não fazer mais arte sacra. O senhor Remy Biancardini dizia: ‘Odete, você faz arte sacra como ninguém. Como vou levar obras para fora?’. Eu respondia: ‘Hoje não produzo mais arte sacra. Faço arte contemporânea, a natureza, as coisas que estão ao nosso redor’. Conforme o tempo passa, você amadurece. Quando começa a dominar o mercado, passa a fazer aquilo que agrada ao seu coração e ao coração de Deus, não ao homem”, afirma.

 

Cuiabá também virou suporte para sua arte. Odete participou da pintura de murais e estruturas urbanas, incluindo trabalhos em viadutos da cidade. A experiência, porém, deixou uma preocupação que vai além da estética: a segurança dos artistas contratados para atuar em grandes alturas.

 

“Pintei murais de Cuiabá, viadutos, entre eles o da Fernando Corrêa, e outros lugares. Foi uma experiência boa, mas deixo um alerta para o contratante que chama um artista para subir em um pilar de seis ou quatro metros de altura e não oferece EPI, nem material de segurança. O artista pode cair, sofrer uma fratura ou até morrer. É muito perigoso trabalhar em uma escada ou em um andaime que balança e não tem estrutura”, adverte.

 

Para ela, espalhar murais pela capital seria também uma maneira de escrever uma biografia coletiva da cidade.

 

“Gostaria que as secretarias contratassem vários artistas para fazer murais pela cidade inteira, para que ela ficasse bonita para o turista, para o visitante e para o morador. Isso embeleza a cidade e começa a contar a história cultural do lugar onde você vive. Acredito que, se houvesse mais produção nesse sentido, Cuiabá ficaria muito mais bonita”, defende.

 

O mercado da arte

Ao falar para quem deseja começar no mundo das artes, Odete não romantiza o caminho. Reconhece a sedução das exposições, das redes sociais e da circulação das obras, mas lembra que o mercado testa a permanência de cada artista.

 

“O mercado não é fácil. Ele exclui aquele que não veio de verdade, que caiu de paraquedas ou entrou apenas por curiosidade. A obra pode entrar desde a casa mais humilde da periferia até a casa de um rei. Quando você faz um mural, acessa todos os níveis da sociedade. Quando faz uma tela ou uma escultura, ela pode entrar na casa de alguém mais abastado, em palácios e até chegar a um rei. Por isso, trabalhe bastante, descubra sua aptidão e veja onde quer aprender. É preciso dedicação e amor pela arte”, aconselha.

 

Depois de uma trajetória que ela resume como quatro décadas de criação, Odete ainda não considera a própria obra concluída. A artista que aprendeu misturando tintas, desafiou mestres, pintou muros, formou alunos, atravessou editais e levou Mato Grosso para dentro de galerias, continua procurando a pincelada seguinte.

 

“O artista nunca está realizado. Quando olha para a obra que fez, quer sempre dar um toque: ‘Eu precisava mudar aqui, precisava mudar ali’. Se eu passar mil vezes diante de uma obra que construí ou vendi, vou pensar que poderia ter mudado um traço. O artista nunca está completo em sua obra. Não sei se sou perfeccionista, mas ele quer sempre algo a mais. Para o artista, a obra nunca está acabada”, conclui.

 

Para finalizar, Odete indicou três artistas ao para você também conhecer:

 

Frede Hortelli Fogaça 

É um renomado artista plástico e escultor em Cuiabá, Mato Grosso. No mercado desde 1997, ele cria esculturas públicas, monumentos e troféus regionais utilizando materiais como ferro, cimento, argila, inox e sucata. (@fredefogaca).

 

Alair Fogaça

Natural de Acorizal, Alair reside em Cuiabá há 41 anos e é a esposa do escultor Fred Fogaça, desse amor que Alair encontrou o talento de modelar esculturas que enriquecem a cultura cuiabana. (@alairfogaca).

 

Nadja Lammel

A artista plástica produziu 16 obras de arte, sendo 14 telas e dois painéis de madeira, que misturam técnicas de grafite com estilos culturais tradicionais de Mato Grosso. (nadja.lammel).

 

Conheça algumas obras de Odete:

Acervo Pessoal

arte odete

 

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