ESSÊNCIA HUMANA 06.09.2026 | 15h00

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Montagem GD
Enquanto a inteligência artificial aprende a produzir imagens, textos e ilustrações em segundos, um movimento na direção contrária começa a chamar atenção: adultos estão voltando a pintar, desenhar, bordar, modelar cerâmica e buscar outras atividades feitas com as próprias mãos.
Mais do que aprender uma técnica, a procura parece refletir uma necessidade de desacelerar. Um relatório de tendências criativas da Michaels apontou crescimento de 136% nas buscas por hobbies analógicos em seis meses. As pesquisas por encontros conhecidos como “Craft Night”, destinados à produção coletiva de trabalhos manuais, cresceram 103%.
A psicóloga Marcela Lima conhece esse movimento também na prática. Além de realizar atividades artísticas, ela promove encontros terapêuticos em grupo por meio da “Oficina de Presença”, com atividades em Cuiabá e São Paulo.
“Vivemos em uma sociedade tão caótica que o simples exercício de se manter presente na própria vida se torna um grande desafio. É nesse lugar que entra a atividade artística. Fazer cerâmica, pintura ou um mosaico se tornam uma forma de assumir o controle da vida e se reconectar com os próprios interesses”, explica.
Para Marcela, até o descanso passou a ser dominado pelas telas. “Um fim de dia cansativo somado a horas em redes sociais, na maior parte das vezes, nos deixa um resíduo de comparação e autocobrança.”
Foi pensando nisso que surgiu a Oficina de Presença. “A ideia foi criar um espaço de conexão através das artes. Nosso objetivo foi construir um espaço seguro e acolhedor para pessoas que desejam viver com mais presença.”
Um estudo publicado em 2024 na revista Frontiers in Public Health, realizado com 7.182 adultos, encontrou associação entre a prática de artes e trabalhos manuais e maiores níveis de satisfação com a vida, felicidade e percepção de que a vida vale a pena.
O tempo da arte
Para o artista Babu SeteOito, pintor que também dá aulas de desenho e aquarelamento, a retomada das atividades manuais pode ser entendida como uma reação ao ritmo imposto pelo universo digital.
“O mundo hoje anda sendo baseado no tempo dos acontecimentos digitais. Os ditos populares que a gente tinha hoje são cortes de internet, e as vivências que as pessoas têm hoje são experiências de redes sociais. Hoje são números em redes sociais”, afirma.
A arte, segundo ele, funciona em outro relógio. “O tempo dos acontecimentos dentro da arte é o mesmo. No jeito de se pensar a arte, no jeito de se fazer, ainda é o mesmo desde sempre. Ao mesmo tempo de se pintar um quadro, de se moldar uma cerâmica ou de escrever um texto, um livro, as pessoas precisam viver durante esse tempo e viver experiências que são reais.”
Que a IA lave os pratos
Babu também enxerga a inteligência artificial como ferramenta, mas defende uma fronteira entre aquilo que pode ser automatizado e aquilo que merece continuar sendo vivido.
“Eu acredito que a IA também é capaz de fazer essas coisas pela gente. Mas eu sinceramente espero que ela lave a minha roupa, lave os meus pratos e me deixe com mais tempo para que eu possa pintar e escrever um livro. Eu não quero que ela escreva o livro, nem pinte por mim.”
Para ele, “a tecnologia tem que estar dentro do lugar de ação dela, não dentro de um lugar de vivência nosso”.
Talvez essa seja uma das chaves para compreender o retorno das mãos à arte. Quanto mais a tecnologia consegue criar por nós, maior pode ser o desejo de preservar aquilo que só ganha sentido quando somos nós que fazemos.
A IA pode produzir uma imagem perfeita em segundos. A aquarela ainda borra, o barro pode desmoronar e o desenho pode precisar ser refeito. E é justamente nesse tempo gasto, na tentativa e até na imperfeição, que muita gente parece estar redescobrindo o prazer de criar.
Serviço
Para agendar aulas de cerâmica criativa na "Oficina de Presença" com Marcela, entre em contato pelo instagram @oficina.presenca.
Para agendar aulas de desenho ou aquarela com Babu, entre em contato pelo número (65) 9307-5222.
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