SAÚDE MENTAL 05.10.2026 | 06h50

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Montagem GD
“Pelos frutos os conhecereis, não pelas raízes”, escreveu o filósofo e psicólogo William James em As Variedades da Experiência Religiosa. A ideia ajuda a compreender uma distinção fundamental quando fé e saúde mental se cruzam: rezar, jejuar, participar de cultos, missas ou rituais e interpretar a vida a partir da espiritualidade não são, por si só, sinais de adoecimento. O alerta surge quando mudanças intensas passam a provocar sofrimento, perda de autonomia, prejuízo na rotina ou dificuldade de manter contato com a realidade.
A expressão “surto religioso” é bastante usada popularmente, mas não corresponde a um diagnóstico clínico. Em determinados episódios psicóticos, porém, delírios e alucinações podem assumir conteúdo religioso, como acreditar ter recebido uma missão divina exclusiva, ouvir vozes com comandos ou interpretar acontecimentos comuns como mensagens direcionadas à própria pessoa.
Nesses casos, o conteúdo religioso não define o adoecimento. O que deve ser observado é o conjunto de sintomas, a mudança em relação ao comportamento habitual e o impacto daquela experiência na vida do indivíduo.
Segundo o National Institute of Mental Health (NIMH), a psicose envolve algum grau de perda de contato com a realidade e pode incluir delírios, alucinações e alterações no pensamento e na percepção.
A psicóloga clínica Aime Alana Carvalho (CRP 18/06895), de abordagem Fenomenológico-Existencial, reforça que experiências religiosas, isoladamente, não caracterizam um transtorno.
“Ideias e experiências religiosas podem surgir em diferentes condições psicológicas e psiquiátricas, especialmente em períodos de crise, mas, isoladamente, não caracterizam um transtorno. Por isso, é necessário acolher o paciente e explorar cuidadosamente sua história, as mudanças em sua rotina, seus vínculos e os demais aspectos de sua experiência de vida.”
A fé, sozinha, não é sinal de doença
Uma pessoa pode rezar diversas vezes ao dia, jejuar, frequentar encontros religiosos e ter convicções espirituais intensas sem apresentar qualquer transtorno mental.
A avaliação precisa considerar a cultura, a religião, a história de vida e a forma como aquela crença é compartilhada dentro da comunidade. A preocupação aumenta quando há uma ruptura importante no comportamento: abandono do trabalho ou dos estudos, isolamento, perda do autocuidado, noites seguidas sem dormir ou discursos muito diferentes do habitual.
Também merecem atenção crenças que passam a dominar toda a rotina ou comportamentos capazes de colocar a própria segurança ou a de outras pessoas em risco.
Para Aime, o ponto central não está na intensidade da fé, mas nas mudanças no funcionamento da pessoa e nos riscos envolvidos.
“A fé não é, por si só, um sinal de alerta. O alerta está nas mudanças abruptas no modo de existir e nos riscos que elas podem trazer para o paciente. Enquanto psicóloga, sugiro observar e investigar o conteúdo dessas experiências: as supostas ordens divinas envolvem violência contra alguém ou a si mesmo? Há orientação para abandonar tratamentos? A pessoa sente-se perseguida espiritualmente? Tem se afastado de seus vínculos? Apresenta ideias de grandeza ou acredita possuir uma missão exclusiva e inquestionável? Essas são perguntas norteadoras para compreender o que está acontecendo no mundo vivido do indivíduo, sem patologizar sua experiência religiosa. Quando há sofrimento persistente, mesmo sem risco imediato, é indicado buscar acompanhamento psicológico e, conforme a necessidade, psiquiátrico. Diante de sinais como alucinações, delírios, perda significativa do contato com a realidade compartilhada ou comportamentos de risco para si ou para terceiros, é recomendável buscar atendimento de emergência imediatamente e não deixar a pessoa sozinha diante de um risco iminente."
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que quadros psicóticos podem envolver delírios, alucinações, pensamento desorganizado e alterações importantes de comportamento. A presença desses sintomas, entretanto, não significa automaticamente esquizofrenia, mas é importante buscar ajuda clínica para avaliar o paciente de acordo com suas vivências, crenças, e cultura.
Quando a crise também vira conteúdo
As redes sociais acrescentaram uma nova camada a essa discussão. Histórias que antes ficavam restritas ao ambiente familiar, religioso ou aos consultórios passaram a ser narradas diante de milhares ou milhões de pessoas.
Influenciadores e usuários comuns compartilham diagnósticos, internações, crises, processos de recuperação e experiências espirituais. Essa exposição pode reduzir preconceitos e estimular a busca por ajuda, mas também transforma momentos de extrema vulnerabilidade em conteúdo sujeito a julgamentos, recortes e viralização.
Um estudo publicado no Health Promotion International, com 803 participantes que haviam visto relatos sobre saúde mental nas redes, mostrou que 54,05% dessas narrativas eram de pessoas comuns, 24,03% de influenciadores e 21,92% de celebridades. Instagram, Facebook, YouTube e X apareceram entre as principais plataformas onde esses relatos foram acompanhados.
No Brasil, a influenciadora Andressa Urach já falou publicamente sobre internação psiquiátrica e episódio psicótico. Em entrevista, afirmou ter sido diagnosticada com transtorno bipolar e transtorno de personalidade borderline e relatou conflitos envolvendo religião naquele período.
Ao recordar um episódio ocorrido em 2022, disse que estava “falando de coisas espirituais” e associava o próprio filho à figura bíblica de Isaac.
O relato não significa que religiosidade provoque psicose. Pelo contrário: mostra que referências religiosas podem aparecer dentro de um episódio psicótico sem que a fé, por si só, seja a causa do adoecimento.
Também é preciso cautela com diagnósticos feitos pela internet. Assistir a uma live ou a poucos minutos de um vídeo não permite concluir que alguém esteja em psicose. O uso indiscriminado de expressões como “surto religioso” pode tanto patologizar manifestações legítimas de fé quanto banalizar crises reais.
Nem todo episódio psicótico tem a mesma causa
Os sintomas de psicose podem surgir em diferentes situações. Segundo o NIMH, episódios psicóticos podem ocorrer associados a transtornos mentais, alterações intensas do sono, determinados medicamentos, uso de álcool ou outras drogas e outras condições de saúde.
Por isso, o diagnóstico deve ser feito por profissional qualificado e a partir de uma avaliação ampla, e não apenas pelo conteúdo religioso do discurso.
A OMS estima que cerca de 27 milhões de pessoas vivam com esquizofrenia no mundo, aproximadamente uma em cada 300. A condição pode apresentar sintomas psicóticos, mas psicose e esquizofrenia não são sinônimos.
Família pode perceber as primeiras mudanças
Pessoas próximas podem ter papel importante na identificação das primeiras alterações porque conhecem o comportamento habitual do indivíduo.
Isolamento acentuado, noites seguidas sem dormir, abandono das atividades, dificuldade de comunicação, medo ou desconfiança excessivos, falas desconectadas e perda do autocuidado são sinais que merecem atenção.
Isso não significa que familiares devam tentar diagnosticar a pessoa. Quando as mudanças são intensas, persistentes ou envolvem risco, a orientação é procurar avaliação profissional.
No Brasil, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) acolhem pessoas em sofrimento psíquico. Em situações de urgência, a rede pública também inclui o SAMU, pelo número 192, UPAs e serviços de pronto atendimento.
A principal diferença, portanto, não está na intensidade da fé, mas na relação daquela experiência com a realidade, a autonomia, o sofrimento e a capacidade de a pessoa continuar conduzindo a própria vida.
Em tempos de redes sociais, há ainda outro cuidado: nem toda manifestação incomum diante de uma câmera é prova de transtorno, assim como uma crise real não deve ser transformada apenas em entretenimento ou “conteúdo”.
Distinguir espiritualidade de sofrimento psíquico exige contexto, avaliação profissional e cuidado para não transformar crenças religiosas em doença nem ignorar sinais de uma crise que precisa de acompanhamento.
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