TEM QUE CRIAR CONTEÚDO? 16.05.2026 | 15h00

redacao@gazetadigital
MONTAGEM/ACERVO PESSOAL
Em um mercado cada vez mais atravessado pelas redes sociais, a presença digital deixou de ser apenas uma escolha pessoal e passou a fazer parte da rotina de muitos profissionais. Médicos, advogados, psicólogos, arquitetos, professores e outros prestadores de serviço se veem diante de uma nova pergunta: para crescer na profissão, também é preciso gravar vídeos, produzir conteúdo e disputar atenção no feed?
Segundo o DataReportal, o Brasil tinha 144 milhões de identidades de usuários ativos em redes sociais em janeiro de 2025, o equivalente a 67,8% da população. Já a pesquisa TIC Domicílios 2024, do Cetic.br, apontou que 81% dos usuários de internet no país usaram redes sociais, enquanto 51% buscaram informações relacionadas à saúde ou serviços de saúde na internet.
Nesse cenário, a visibilidade passou a influenciar também a forma como pacientes e clientes encontram profissionais. Por isso o
ouviu dois profissionais da saúde que seguiram trajetórias opostas para tentar entender essa transformação e os pontos negativos e positivos que ela trouxe.
Manoel Vicente: o profissional que transformou a rede em espaço de fala
O psiquiatra Manoel Vicente de Barros representa um dos lados dessa mudança. Com mais de 400 mil seguidores nas redes sociais, ele passou a usar as plataformas como forma de comunicação, reflexão e aproximação com o público. A entrada no universo digital, segundo ele, começou como uma tentativa de se firmar profissionalmente, mas logo revelou outra dimensão: produzir conteúdo também se tornou uma nova profissão.
“Eu entrei nessa porque queria me firmar como profissional. Progressivamente, fui percebendo que produzir conteúdo também era uma outra profissão, um outro ato de comunicação, e gostei de fazer isso. Só que, muitas vezes, a rede social começa a se tornar uma outra chefe”, afirmou.
Para Manoel, a promessa de liberdade trazida pelas redes também carrega uma armadilha. O profissional liberal, que antes respondia principalmente à própria rotina de trabalho, passa a depender da aprovação constante do público, dos comentários, das métricas e do desempenho das publicações.
“Nós somos profissionais liberais, trabalhamos para nós, mas, de repente, nos vemos contratados por uma rede social que nem sempre paga tão bem. Todo produtor de conteúdo é um empregado sem carteira assinada. É um empregado da opinião popular”, disse.
O psiquiatra relaciona esse fenômeno ao aumento da ansiedade, tema central de seu livro “O fim da guerra contra a ansiedade”, que está em pré-venda e será lançado em 10 de junho. Para ele, a cobrança permanente das redes transforma o trabalho em uma vitrine emocionalmente desgastante.
“Quando você precisa atender à expectativa dos outros, a produção de conteúdo fica penosa. A gente está sempre sendo avaliado, sempre sendo comentado, e naturalmente a nossa mente amplifica todo comentário ruim, tudo que é negativo. É por isso que é tão difícil conviver e viver nesse mundo de rede social”, afirmou.
Manoel também alerta para o risco da comparação permanente. Se antes o profissional se comparava com colegas próximos, hoje ele passa a medir sua trajetória com pessoas de todo o país, muitas vezes sem conhecer os bastidores daquela exposição.
“Na rede social, você não está se comparando mais com quem está na mesa ao seu lado. Você se compara com o mundo inteiro, com o Brasil inteiro. Sempre tem alguém melhor do que você, e isso gera ansiedade, gera frustração. Essa sensação é profundamente desestabilizante para a saúde mental”, explicou.
Apesar de reconhecer a importância da comunicação digital, Manoel pondera que popularidade não pode ser confundida com competência. Para ele, há bons profissionais que não sabem produzir conteúdo e bons comunicadores que nem sempre são os mais qualificados em suas áreas.
“A rede social gera uma vitrine que pode ser muito enganosa. É muito mais fácil se tornar um bom comunicador do que se tornar um bom profissional de saúde, um bom médico. As pessoas se confundem, acreditando que quem produz melhor é o profissional mais qualificado, e muitas vezes é o oposto”, afirmou.
Carlos Alberto Zaguini: a carreira construída longe das redes
Na outra ponta da discussão está o médico Carlos Alberto Zaguini, de 60 anos, ginecologista e obstetra, com 35 anos de atuação. Natural de Santo André, em São Paulo, ele vive em Cuiabá há 27 anos e construiu a carreira longe da exposição digital. Sem utilizar redes sociais profissionalmente, ele defende que a medicina continua sendo sustentada pela confiança, pela ética e pela experiência acumulada no atendimento diário.
“Existe, sim, uma pressão crescente para que os médicos estejam presentes nas redes sociais. Muitas vezes parece que quem não aparece acaba sendo menos lembrado. Mas acredito que a medicina ainda deve ser construída principalmente através da competência, da ética e da confiança conquistada no atendimento diário”, afirmou.
A escolha de não transformar sua atuação em conteúdo, segundo Carlos, foi consciente. Ele diz que nunca sentiu necessidade de se promover para consolidar a carreira e que sua principal forma de divulgação sempre foi a experiência dos próprios pacientes.
“Sempre preferi dedicar meu tempo ao estudo, aos pacientes e à prática médica. Nunca senti necessidade de me promover para construir minha carreira. Minha maior divulgação sempre foi a satisfação e a indicação dos próprios pacientes e dos colegas médicos”, explicou.
Para o ginecologista, a internet mudou parcialmente a forma como as pessoas escolhem profissionais, mas não eliminou a força da indicação direta. Na avaliação dele, o paciente ainda valoriza o acolhimento, a escuta e a segurança transmitida durante o atendimento.
“O boca a boca continua extremamente forte na medicina. Quando um paciente se sente acolhido e bem tratado, ele naturalmente indica aquele médico para familiares e amigos”, disse.
Carlos reconhece que as redes sociais podem ser usadas de maneira séria e educativa, especialmente para orientar a população sobre saúde. No entanto, ele vê risco quando a exposição passa a ocupar mais espaço do que a prática profissional.
“Alguns profissionais conseguem utilizar as redes de maneira séria e educativa, o que pode ser positivo. Mas também acredito que existe um risco de a medicina perder um pouco da discrição e da sobriedade quando a exposição se torna excessiva”, afirmou.
O médico também alerta para a confusão entre popularidade e preparo técnico. Para ele, seguidores, curtidas e vídeos virais não devem ser tratados como prova de qualidade profissional.
“Número de seguidores, visualizações ou vídeos virais não são garantia de formação sólida, experiência ou qualidade técnica. A medicina é muito mais complexa do que aquilo que pode ser mostrado em poucos segundos de internet”, pontuou.
Mesmo diante da nova realidade digital, Carlos afirma que os fundamentos da medicina permanecem os mesmos. “As redes sociais podem ser uma ferramenta, mas nunca devem substituir a essência da medicina. O mais importante continua sendo estudar, adquirir experiência, tratar bem os pacientes e construir uma reputação sólida ao longo do tempo”, disse.
Entre aparecer e permanecer
Entre o psiquiatra que usa as redes para dialogar com centenas de milhares de pessoas e o ginecologista que construiu a carreira sem depender da exposição digital, a resposta não parece absoluta. As redes podem abrir portas, ampliar acesso à informação e aproximar profissionais do público. Mas também podem transformar o trabalho em uma segunda jornada, marcada por comparação, pressão estética, ansiedade e disputa por atenção.
No fim, nem todo trabalhador precisa ser criador de conteúdo. Mas, em um tempo em que a visibilidade passou a pesar sobre a reputação profissional, o desafio talvez seja outro: usar a vitrine sem permitir que ela substitua a essência do trabalho e cuidar para que as informações repassadas sejam revisadas e não causem desinformação.
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