SOJA AMEAÇADA 07.03.2026 | 14h50

ana.frutuoso@gazetadigital.com.br
Reprodução
As fortes chuvas que vêm atingindo Mato Grosso nas últimas semanas já provocam transtornos visíveis nas áreas urbanas com ruas alagadas, bairros isolados e prejuízos à mobilidade, mas o impacto vai além dos centros urbanos. No interior do estado, especialmente em Marcelândia, a 675 km de Cuiabá, no norte mato-grossense, o excesso de chuva também compromete a produção agrícola, danifica estradas e ameaça a logística da safra.
Apesar do avanço da colheita de soja em Mato Grosso, o excesso de chuvas em fevereiro tem causado prejuízos significativos a produtores. Dados do projeto Imea em Campo, parceria do Instituto de Economia Agropecuária com a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), apontam que até 27 de fevereiro 78,34% da área já havia sido colhida no estado, ritmo que poderia ser maior não fossem os elevados volumes de precipitação. Isso porque no ano anterior, no mesmo período já havia sido colhido mais de 80%.
Mesmo com a estimativa de produção recorde de 51,41 milhões de toneladas para a safra 2025/26, a realidade no campo tem sido de dificuldades operacionais e perdas localizadas. Em Marcelândia, o presidente do Sindicato Rural, Marcelo Cordeiro, afirma que o volume de chuva já ultrapassou com folga a média histórica.
“O município costuma registrar cerca de 1.800 milímetros anuais, mas neste ano já havia atingido 2.300 milímetros até a semana retrasada, podendo chegar perto de 3 mil milímetros até o fim do período chuvoso. Foram chuvas constantes, raros foram os dias de sol”, relatou.
O excesso de água travou a colheita e comprometeu a infraestrutura logística. Cordeiro estima que entre 25% e 30% da soja ainda não foi colhida no município.
“Temos estradas bastante ruins, pontes que cederam e cabeceiras que baixaram. A ponte da MT-423, que liga Marcelândia a Cláudia, está com a ponte do Rio Azul interditada. Tivemos bueiros rompidos e estradas cortadas por trombas d’água”, descreveu.
Além do campo, o problema se estende ao escoamento. “Na colheita o trator atola; no plantio do milho também. Quando consegue escoar, chega à BR-163 e encontra buracos. No Porto de Miritituba há filas muito grandes”, acrescentou.
Produtores relatam impactos financeiros relevantes. O agricultor Alexandre Falchetti e delegado coordenador da Aprosoja Mato Grosso em Marcelândia, afirmou que em sua lavoura cerca de 20% da área colhida apresentou grãos avariados entre 14% e 25%.
Segundo ele, além do dano direto, há perdas indiretas. “Temos perda de peso e queda de produtividade”, disse. Falchetti também confirmou piora generalizada na qualidade dos grãos e atraso no plantio do milho.
Ele destaca ainda a ausência de seguro rural viável. “Não tivemos seguro pois não ouve incentive federal pra isso e o custo fica inviável fazer, os preços hoje da soja só cobre o custo de produção alto custo dos insumos, tem dificultado a produção. Devido ao alto custo e a perca de janela para plantio do milho a redução de área se torna a melhor opção, ainda ficamos a mercê do preço que está cada vez mais instável e inseguro para a produção”, afirmou.
O produtor Willian Carboni relata quadro semelhante. De acordo com ele, houve queda de produtividade em torno de 15% devido à alta umidade e aos descontos na classificação dos grãos. “A colheita terminou com cerca de dez dias de atraso por causa das chuvas e atoleiros. Tivemos muita perda, grãos avariados e perda de peso dos grãos em razão das fortes chuvas”, resumiu.
Pressão por medidas emergenciais
A avaliação do setor é que, além das perdas climáticas, os produtores enfrentam gargalos logísticos e custos elevados não apenas na região de Marcelândia. Em nota a Associação de Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) critica o aumento da cobrança do Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab), fundo criado pelo governo do estado de Mato Grosso para arrecadar recursos, principalmente de produtores rurais e empresas do setor agropecuário para investir principalmente em infraestrutura.
A previsão de manutenção das chuvas em março mantém a preocupação no setor, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) há alerta de chuvas intensas para 138 municípios de Mato Grosso. A previsão é de temporais até quinta-feira (05). Embora a estimativa estadual de produtividade tenha sido revisada para cima, o excesso de umidade ainda pode limitar o ritmo da colheita nas áreas restantes e ampliar os prejuízos localizados.
Assim, enquanto as cidades lidam com alagamentos e transtornos urbanos, o campo mato-grossense também sente o peso do período chuvoso, um efeito duplo que pressiona tanto a produção quanto a logística em uma das principais regiões agrícolas do país.
Leia a nota completa:
A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) reforça que reconhece a importância histórica do Fundo Estadual de Transporte e Habitação (FETHAB) para a evolução da infraestrutura do Estado. O fundo foi determinante para ampliar a malha rodoviária pavimentada, melhorar corredores logísticos e elevar a competitividade da produção mato-grossense. Contudo, o atual cenário econômico impõe uma nova realidade ao setor produtivo.
Os produtores rurais enfrentam uma das conjunturas mais desafiadoras dos últimos anos, marcada por perda significativa de margem, elevação expressiva dos custos de produção, escassez de crédito, juros proibitivos e aumento da inadimplência. Em diversas regiões, problemas climáticos e dificuldades na colheita agravaram ainda mais a situação financeira das propriedades, especialmente entre pequenos e médios produtores.
Nesse contexto, o impacto do FETHAB, sobretudo diante da indexação inflacionária e da atualização pela Unidade Padrão Fiscal de Mato Grosso (UPF) passa a ter peso crescente na composição de custos da atividade.
Além disso, nas regiões onde rodovias já foram concedidas à iniciativa privada, os produtores enfrentam uma dupla oneração: contribuem com o fundo e, posteriormente, arcam com pedágios elevados para escoar sua produção. Embora o modelo de concessão tenha seu papel na manutenção e melhoria da malha viária, a sobreposição de custos tem gerado forte insatisfação do setor.
A Aprosoja MT entende que é necessário construir uma solução definitiva, especialmente em relação ao FETHAB 2, cuja vigência está estabelecida até 31 de dezembro de 2026. A entidade defende que o caráter temporário do adicional seja respeitado e que se inicie, desde já, um debate estruturado sobre o encerramento definitivo do mecanismo, bem como sobre a revisão da indexação inflacionária e a imediata interrupção do aumento programado para o próximo semestre.
Ao mesmo tempo, a entidade reconhece os desafios fiscais envolvidos. O FETHAB representa parcela relevante da receita destinada à infraestrutura, e qualquer alteração exige responsabilidade, observância à Lei de Responsabilidade Fiscal e planejamento técnico para evitar desequilíbrios orçamentários que possam comprometer as obras em andamento.
Diante desse cenário, a Aprosoja MT seguirá dialogando com o Governo do Estado e com a Assembleia Legislativa na construção de alternativas viáveis, equilibradas e juridicamente seguras. O objetivo é preservar a capacidade de investimento em infraestrutura, contudo, sem comprometer a sustentabilidade econômica da atividade rural.
A entidade continuará ouvindo sua base, e nos próximos dias ampliará o debate sobre cenários e propostas concretas e viáveis, reforçando seu compromisso com o desenvolvimento de Mato Grosso, mas sem perder de vista a natureza inadiável de medidas que aliviem a pressão financeira sobre quem produz.
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