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Opinião - A | + A

26.05.2003 | 03h00

Arte do balão

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Sonhei com crianças brincando com balões. Exatamente, balões. Como eu não tinha pensado nisso antes? Elas adoram balões. Em seguida fiquei imaginando quão rico isso poderia ser e, a partir dessa idéia de trabalhar com balões, comecei a pensar outras coisas. Poderia encher os balões e pintá-los, fazendo cada um sua respectiva "carinha", nos seus respectivos balões e usando-os como baloches (fantoches de balão) proporcionando uma sócio-interação entre as crianças em suas conversas peculiares construindo idéias e conhecimentos. Porém, pensei que alguns poderiam estourar o seu balão e toda a proposta iria se perder, muitas crianças têm medo do estouro de balão, elas entrariam em prantos. Portanto, pensei em colocar balas dentro dos balões. Dessa forma, se eles estourassem os balões, teriam ali as balas. Ou seja, aquelas que quiserem estourar o balão, sabem que irão encontrar a bala, agindo então, não num sentido de agressividade simplesmente por ser agressivos, mas num sentido de estar expressando sua agressividade com um objetivo a ser conquistado, mesmo que implicitamente. Seria uma forma de sublimação. Já aqueles que têm medo do estouro de balão, ao invés de abandonar o balão depois que acabar sua produção artística, procurará de alguma forma conseguir a bala que está dentro do balão, trocando, pedindo ajuda ou arrumando qualquer outra solução para satisfazer a sua vontade, o que é uma especialidade das crianças, interagindo.

Porem pensei que essa coisa de desenhar rostinhos dará certo nas turmas de alfabetização, mas nos menores não vai funcionar. É algo que exige uma certa operacionalização que ainda não é formal na realidade dessas crianças, então, porque não podemos desenhar qualquer coisa?

Isso. As crianças poderão desenhar ou construir o que quiserem. Proporcionando, inclusive, maior motivação ao dar liberdade para desenhar e pintar o que quiserem. Sentindo, dessa maneira, muito mais o prazer de lambuzar os dedos, as mãos, os braços, a barriga, as pernas e o corpo todo, envolvendo-se num sentido completo na realização de seu ato do que o simples ato funcional predeterminista do estar pintando.

Finalmente para ter alcance à bala cada um terá que destruir seu balão. Dessa forma simboliza-se a construção, desconstrução para uma reconstrução do seu produto no processo de suspensão e resignificação de conteúdos internalizados, expressando sua agressividade, não aleatoriamente, e sim num objetivo a ser alcançado. Mas é cargo da criança escolher destruir sua produção para alcançar a bala ou não pegar a bala e permanecer com sua obra.

Foi isso que fiz com meus alunos.

Todo o processo de execução do exercício é muito gostoso e rico em vários aspectos. Na evolução da linguagem em comunicação, na percepção de encarar os fatos, na sensibilidade tanto sensorial como psicológica e sentimental, na escolha, na capacidade de proporcionar um resultado de evolução interativa entre as crianças quando uma arruma o desenho da outra, pinta o colega, ajuda a estourar o balão ou divide a bala. As tintas vão se misturando, as crianças vão se tornando homogêneas junto às tintas e ficando todos de forma muito, mas muito particular. Talvez esse seja o real objetivo da arte e da nossa existência. A entrega completa de si à sensação proposta, aos sentimentos inerentes ao ser e que, na verdade, cada um sabe como fazer. Pois já fizemos isso que essas crianças fizeram, porem, deixamos de nos permitir. Mas ainda tem tempo. Vamos fazer essa brincadeira com nossos filhos, sobrinhos, primos, afilhados, netos e, na desculpa de mostrar-lhe como fazer, ensine detalhadamente, se entregando à gostosa sensação de se lambuzar de prazer quando você se envolve verdadeiramente em uma produção sua, única, que ninguém vai conseguir imitar, porque o que você vai sentir fazendo, ninguém vai sentir igual.

Fabio Bertacini é ator, professor de teatro e artes e estudante de psicologia.

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