14.12.2003 | 03h00
Gostaria de prosseguir em mais uma abordagem da questão cultural de Mato Grosso, abordada no artigo de sexta-feira, com repercussões contraditórias como, aliás, contraditórios são os traços culturais mato-grossenses.
O linguajar cuiabano falado na chamada Baixada Cuiabana que espraia influência por dez municípios. Na verdade, trata-se de uma matriz cultural nascida de um mesmo tronco de influência.
A linguagem descende do falar bororo que habitava a região da Baixada e se estendia até Cáceres e o Médio-Norte. O sistema semântico do "tch" presente na pronúncia de "petche", o "dj" em "cadju", e o "a" aberto em "bánho", o "om" em "são", ou o "ao" em "televisão", são de descendência borora.
Os índios bororos exerciam uma enorme influência na região. Mas a influência ficou muito mais quando eles compuseram a matriz materna das gerações que habitaram a região de Cuiabá a partir de 1719. Havia homens brancos, negros e caboclos que habitaram o núcleo original de Cuiabá, mais tarde configurado como Arraial do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. A predominância era exclusivamente masculina. Raríssima eram as mulheres brancas ou negras disponíveis para casamento.
Então os homens roubavam mulheres bororas e traziam para a cidade e se casavam ou amancebavam com elas. E aos poucos foi-se misturando a cultura índia ancestral com a cultura branca-negra-cabocla existente.
As mulheres bororas aprendiam a língua portuguesa, mas incluíam nela senhas de um sotaque bororo, como o "dj" e o "tch" que repassavam aos filhos até se incorporarem como traços da língua corrente na região. Os bororos se estendiam até a região de Cáceres, onde habitavam povos chiquitanos vindos da Bolívia-baixa. Lá, também, a linguagem se desenvolveu semelhante, por razões assemelhadas às de Cuiabá.
Ao longo de dezenas de anos foi-se perdendo e se perderam os traços originais da ancestralidade borora e da origem a quem se uniu. Acabou se produzindo uma cultura nova. Nem essencialmente branca. Nem essencialmente borora. Mas profundamente humana.
Um pouco da displicência índia no trato das urgências. Porém, humana e agarrada a valores que mantêm traços sociais índios.
A partir daí formaram-se o sincretismo religioso e a própria etnia diferenciou-se de todas as demais existentes no país. Os bororos afastaram-se para o Leste do estado e se confinaram nas imediações de onde se situa Rondonópolis, Pedra Pedra e Itiquira, municípios hoje sulistas de Mato Grosso.
Portanto, quando houve o choque de culturas em função das grandes correntes migratórias vindas do Sul, do Sudeste e do Nordeste ao longo dos últimos 60 anos, a matriz cultural foi se enriquecendo e transmutando-se. A viola de cocho tradicional não morreu. Modernizou-se. O cururu e o siriri, a dança de São Gonçalo se enfeitaram para a mídia, mas não morreram. Reproduzem-se na juventude. O linguajar influenciou-se mas se mantém.
Se entrou a música do Sudeste, a música folclórica sulista ou nordestina, celebra-se, na verdade, um sincretismo musical e uma matriz cultural que marcará os novos tempos.
Bobagem pensar que a cultura cuiabana morreu. Cultura não morre nunca. Apenas se transmuta.
Onofre Ribeiro é jornalista em Cuiabá. Site: www.onofreribeiro.com.br
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