05.09.2006 | 03h00
Em janeiro de 1898 retornava do Rio de Janeiro para Cuiabá o senador Generoso Ponce. Era o mais poderoso político do Estado. Além de senador era também deputado estadual (a lei permitia) e presidente do Partido Republicano. Fora ainda o vencedor da "revolução" de 1892. Forte na política e até na área militar.
Chegava o senador por embarcação no porto em Cuiabá. Ali havia sempre um bonde puxado a cavalo que ia a pontos diferentes da capital. Naquele dia, o bonde não estava. O senador, acompanhado por grande número de correligionários, resolveu ir para casa caminhando.
A certa altura do trajeto ele avista o bonde. Não teve dúvidas: monta nele. Mas o bonde não sai do lugar. Ele pergunta o que houve, foi informado que o chefe de Polícia (hoje secretário de Segurança) ordenara que o bonde não funcionasse. Precisava de reparos técnicos.
O senador Ponce não queria saber disso. Queria ir para casa e já montado naquele meio de transporte grita: "siga o bonde". O condutor nem pestanejou. Foi em frente.
Esse pequeno incidente provocou um rebuliço na política estadual. O chefe de Polícia imediatamente renunciou. Não ficou só nisso. O governador do Estado, Antônio Corrêa de Costa, em 25 de janeiro de 1898, manda uma carta a Generoso Ponce entregando o cargo de governador, pois, na visão dele, havia sido desmoralizado pelo senador. Não teve conversa que o fizesse voltar da sua decisão.
No dia 31 de agosto de 1899 andava pela Rua Voluntário da Pátria, às 5 horas da tarde, indo para casa, o senador Generoso Ponce. Há uma troca de insultos entre ele e um agrimensor polonês, Ramon Jackwiskc, que morava em Cuiabá.
O polonês deu uma forte bengalada na cabeça do senador. Há muito sangue. Eles se atracam por algum tempo. Pessoas começam a chegar. O senador, apesar de estar na oposição no Estado, era ainda poderoso. O polonês vendo a coisa se complicar se refugia num pequeno armazém. Fica lá dentro e a multidão aumentando.
Vendo que ficar ali não seria boa coisa tenta se safar. Nesse momento a multidão investe sobre ele e o lincha em plena rua. Vai haver um fuzuê político por causa do fato que passou para a história local como "Ramonada".
O lado do senador vai acusar quem estava no governo de mandar alguém para matar o líder da oposição. O caso foi bater na grande imprensa nacional e no Senado. O grupo de Ponce dizia que na autópsia foram encontradas marcas de sabre. Arma só da polícia. Diziam que o polonês, quando estava sendo linchado, disse que tinha coisas para confessar. E que a polícia do governo o mata por isso. É difícil aceitar que mandaram matar o senador a bengaladas.
Por causa do fato, a repressão vai aumentar. O lado situacionista começa a prender em pontos diferentes da cidade os correligionários do senador. Prendem altas personalidades da época, como ex-governador, deputados, altos funcionários. Este grupo pede habeas corpus à Justiça do Estado. Esta, que procurava sempre ficar do lado do poder, negou.
Apelam para o STF no Rio de Janeiro. E que, por incrível que pareça, para julgar o habeas corpus pede a presença dos implicados na capital federal. Foram 17 pessoas, das mais ilustres do Estado por rio, durante 30 dias para serem julgadas. O habeas corpus foi concedido. Só apagou momentaneamente o fogaréu da política estadual.
Uma outra curiosidade. Entre 1889, do começo da República, até 1906, início de um novo momento na política estadual, Mato Grosso teve 6 governadores. Cinco deles chamavam-se Antônio: Antônio Maria, Antônio Corrêa, Antônio Cesário, Antônio Alves e Antônio Paes de Barros. Entrou no meio de tantos Antônios um Manuel (Murtinho).
Alfredo da Mota Menezes escreve em A Gazeta. E-mail: pox@terra.com.br
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