28.12.2005 | 03h00
Muito se tem falado sobre o gerundismo: nome dado a nossa recente mania nacional de juntar o verbo vou estar + gerúndio. Algumas empresas, como a Accor do Brasil, entendendo esse fenômeno lingüístico como pernicioso não só para o idioma pátrio, mas principalmente para a sua própria economia, chegou a criar um antídoto antigerundismo. Recentemente a Rede Globo de televisão num dos capítulos da novela Belíssima deu também a sua contribuição para erradicação desse fenômeno. A personagem Bia Falcão, representada por Fernanda Montenegro, repreendeu severamente a sua secretária quando esta disse que "iria estar transferindo" uma ligação de um dos diretores da empresa para a sala da presidência".
Para alguns, os puristas, trata-se de uma endorréia: uso repetitivo de gerúndio em contextos que fogem aos de processos duradouros e contínuos, por exemplo. Para outros, especialistas, como a professora Maria Helena de Moura Neves, da Unesp de Araraquara, na locução do gerúndio, "é possível obter um efeito pragmático, cujo objetivo é atenuar o compromisso com a palavra dada: Quando digo "vou passar seu recado", a referência é a ação em si. Não me atenho à sua duração. Com isso, amarro um compromisso. A ação é indicada ali, pura e simplesmente. Garanto que ela se cumprirá. Ao usar o gerúndio, deixo de me referir puramente à ação e incorpora-se o aspecto verbal durativo. A ênfase passa a ser outra. Você comunica que até encontrará tempo para fazer a ação, mas seu foco não está mais nela". Outros especialistas ainda, como o lingüista Sírio Possenti, da Unicamp, no gerundismo "há um paradoxo semântico porque se dá a impressão de que a ação prometida é duradoura. Ao adotar o gerúndio numa construção que não o pedia, a pessoa finge indicar uma ação futura com precisão, quando na verdade não o faz". Assim, segundo Possenti, se digo "vou estar resolvendo seu problema", há um comprometimento mínimo de quem fala.
Permitam-me discordar dos puristas que acreditam tratar-se de uma endorréia e de meus professores do doutorado e dizer que o gerundismo, antes de ser um fenômeno de modalização do discurso, no qual o locutor não se compromete ou se comprometeria minimamente com o que diz, é muito mais um fenômeno de particitação urbana. Comecemos explicitar o que entendo por
O usuário do gerundismo ao dizer, por exemplo, "nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos clientes os nossos produtos" pressupõe pragmaticamente que ele mesmo e o seu ouvinte são membros de uma determinada comunidade, de um mesmo grupo de referência, que são arrebanhados em uma relação especular, isto é, o locutor cita aquilo que poderia/deveria ser dito pelo seu ouvinte e, mais amplamente por todo membro da comunidade que age de maneira plenamente conforme a esse pertencimento. Assim, quando fazemos uso do gerundismo, estamos muito mais buscando pertencer a uma determinada comunidade, a um determinado grupo de referência do que não se comprometer com o que dizemos. Contudo, paradoxalmente queremos pertencer a uma determinada comunidade preservando certa relação de impessoalidade com os demais membros dessa comunidade. Entendo também, que se trata de um fenômeno de particitação urbana, pois diferentemente do que acontece na zona rural, nos centros urbanos as relações intersubjetivas são marcadas pela formalidade/impessoalidade. O gerundismo conota bem essa formalidade/impessoalidade urbana nas interações verbais. Embora a mídia nos seus mais diversos suportes penetre nos mais longínquos lugares, os espaços rurais ainda sofrem menos influência midiática. Um agricultor que dissesse ao seu vizinho por exemplo, que iria estar botando uma galinha para chocar, provavelmente seria ridicularizado, pois esse tipo de construção não faz parte do seu grupo de referência. Até um próximo encontro.
Roberto Leiser Baronas é doutor em lingüística e professor na Unemat e na UFMT. E-mail: baronas@uol.com.br
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