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28.01.2009 | 03h00

O grito da natureza em alerta aos insensatos

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A natureza vem de há muito dando seu grito de alerta às pessoas insensatas que não entendem que as calamidades, enchentes que alagam muitas cidades, desabrigando e matando, nunca poderá atingi-las. Não entendem que essas calamidades só parecem más aos outros e que se trata de um problema parcial, de somenos importância, que nunca atingirá a si ou aos seus entes queridos e, que, portanto que se dane o outro. Trata-se de uma tremenda ignorância da ordem e da coerência em relação à natureza como um todo.

As dores pelas quais passam desde o começo do mês de novembro o belo estado de Santa Catarina, atingindo cerca de 50 municípios, onde o Vale do Itajaí foi o mais prejudicado, e que ganhou intensidade com as fortes chuvas a partir de dezembro de 2008, atingindo a cidade de Campos/RJ e grande parte do interior de Minas Gerais, com 55 municípios em estado de emergência. Todos os anos alagam-se as principais cidades do país. São os mesmos problemas da seca do Nordeste e deveriam despertar um mínimo de justo e merecido sentimento por parte das pessoas e do poder público. A perda de vidas, moradias e pertences por tanta gente, em sua maioria pobre, é fato lastimável sob todos os aspectos. E, então, é um Brasil inteiro se comovendo e chorando o "leite derramado". O povo brasileiro tem confirmado o seu coração solidário. O que tem de existir é a precaução, a política de prevenção, o zelo por parte da população em relação ao meio ambiente. Essas tragédias dão provas inequívocas do desequilíbrio que o mau planejamento e desleixo dos nossos governantes e cada um de nós têm com o saneamento básico das cidades. Mas enchentes não são os únicos problemas.

Enquanto a água dá a sua grita de destruição no Sul e Sudeste do Brasil, o Nordeste sofre com a escassez da água. E lentamente, isso também é destruidor. Somente agora, em quinhentos e poucos anos de Brasil, temos um presidente da República preocupado com a seca que expulsa milhares de nordestinos para as favelas dos grandes centros urbanos, por falta de água para beber e plantar. O governo Lula está, mesmo com críticas por parte de um exótico bispo da Bahia e alguns mequetrefes opositores, dando prosseguimento à transposição do rio São Francisco, onde menos de 1,5% da água que se perderia no mar, direcionará para o sertão da Paraíba, Ceará e Pernambuco, abastecendo cerca de 12 milhões de brasileiros. E assim o trágico e repetido drama da estiagem, evitará, em parte, o triste espetáculo das levas de migrantes para destinos mais sombrios, engrossando o caldo da miséria estabelecida nas periferias e/ou favelas das grandes e médias cidades.

A seca do Nordeste promove há muito tempo a fuga de seres humanos para a degradação lenta e penosa para os guetos da vida, onde perdem a esperança primeiramente e, depois, a dignidade. O trajeto dos migrantes à margem da decência vai deixando rastros da fome e da miséria e os seus descendentes, sem escola e trabalho, fazem da pistola e da prostituição meios de vida pelas favelas do país.

O que sobra incomum entre os desabrigados das enchentes e da seca, embora sejam fatos de tragédias incontestáveis, é que nas regiões Sul/Sudeste, historicamente, os mais distanciados das calamidades, são mais difundidos. Já em relação à seca do Nordeste, há a eterna reprise da estiagem. Fato este que já se tornou comum para a imprensa e o poder público, por isso é assunto fora de pauta. O que não deixa de ser uma insensatez.

João da Costa Vital é contador, pedagogo, jornalista e analista político. Escreve às quartas-feiras, neste jornal. E-mail: joaocvital@pop.com.br

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