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29.09.2010 | 03h00

Revelando o segredo maçônico

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O filósofo John Locke já disse que o grande segredo guardado pelos maçons é que a maçonaria não tem segredo algum. Trata-se de revelação nada desprezível. E guardar isto (em segredo) por tanto tempo significa uma proeza. Tarefa árdua e difícil. O mistério persiste no fato de como os maçons conseguiram fazer política, discutir de modo restrito ao ambiente maçônico e agir no aberto com eficiência - impecável.

A maçonaria nasceu das corporações de construtores na Idade Média. Todo restante é tão somente mitos. Inexistente um registro dela anterior. Os pedreiros mais qualificados tinham truques profissionais e bons salários. E cultivaram o hábito de mantê-los no segredo. A partir do século 17 as técnicas artesanais construtivas perdem valor. As universidades (engenharias) desenvolvem melhores técnicas e publicam-nas. Daí a maçonaria voltar-se à filosofia humanista. E ao afazer da política republicana - democrática. Enfim, de uma espécie de sindicato radical atraiu intelectuais e transformou-se num clube social (estilo inglês) - era chique participar dos encontros com ar de sarau secreto a partir de 1717. Ela tem a ideia atual de que cada indivíduo deve refletir sobre suas atitudes e buscar bons caminhos e mais éticos. No fundo não é una, mas várias. Nem sequer uniforme, pois cada país tem autonomia para definir objetivos. Na Inglaterra e Brasil esteve mais ligada à aristocracia política. Na França, anticlerical e pragmática. Na Itália, revolucionária. E daí vai e até já serviu de entrave para derrubar ditaduras - antagonismo já superado. Ser maçom entre o século 18 e 19 era um pouco como ser de esquerda hoje.

Enfim, o grande segredo maçônico não passa hoje de fazer uma longa viagem com companheiros e envelhecer eticamente. Algo como perguntar a si mesmo em que ser humano me tornei. E o que fiz para melhorar o mundo endurecido na brutal corrupção. Trata-se de segredo íntimo e inviolável difícil de exprimir com palavras. É como guardar para si as próprias torpezas ou vitórias sobre as próprias vicissitudes. E penitenciar diariamente por estar deixando um mundo igual ou pior aos filhos e netos. Daí quanto mais velho ser um maçom mais avolumado ser seus segredos. É um delírio da pequenez construindo grandezas. Não desistir de fazer um mundo mais civilizado com tantos maçons e não-maçons violentando as regras morais e fracassando nas artes de viver com dignidades.

Nestes tempos bicudos, o grão-mestre-geral do Grande Oriente do Brasil (GOB), fundado em 1822, senhor Marcos José da Silva, registrou rituais, códigos e tradições maçônicas na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro - 21 livros como se fossem dele e com direito de usufruir dos 5% das vendas dos manuais - direitos autorais. E alterou internamente no GOB os rituais para terem que sofrer novas impressões tipográficas - sem licitação e em gráfica apaniguada e com preços levemente avolumados no mercado. As mudanças ritualísticas, dizem os entendidos, foram para pior. Não agradaram - além de ter português mais sofrível, misturou alhos com bugalhos e finalidades maçônicas. A iniciativa acarretou forte reação de mais de 90 mil maçons brasileiros, não pelo fato em si de revelar ou deixar público o que já está revelado em abundância em livros históricos e na rede mundial de computadores - Internet, mas pela falta absoluta de compromisso ético de quem deveria por ofício fazer a defesa da ética ou progresso humano. Está se pedindo no Supremo Tribunal Federal Maçônico a abertura do processo de impeachment contra ele - o esperto -, mas a luta parece ser árdua ou muito difícil. Há quem prefira ignorar a gravidade do fato. E que o rapaz se tivesse boa intenção poderia registar os manuais em nome do GOB e não modificá-los inutilmente quiçá por conchavos comerciais e políticos para revendê-los com as vendas garantidas ao preço superior.

Ao não-maçom que quiser cópia fidedigna dos manuais é só requerê-la na Biblioteca Nacional. Não precisa mais perder tempo com análises do que é verdadeiro ou falso na Internet. Os livros estão disponíveis para qualquer interessado e com pagamento de direitos autorais - evidentemente. E o Brasil ansioso espera neste instante da maçonaria nacional que ela honre sua promessa maior de agir com disciplina e ética (dentro e fora de casa), mas que a vergonha já lhe bateu às portas maçônicas - isto sim, bateu mesmo.

Hélcio Corrêa Gomes é advogado e diretor tesoureiro da Associação dos Advogados Trabalhista de Mato Grosso (Aatramat). E-mail: helciocg@brturbo.com.br

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