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30.05.2009 | 03h00

Uma reflexão sobre a solidão

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A solidão é algo inerente à condição humana, é constitutivo do ser. Surge com o nascimento e se esvai com a morte. Isto para aqueles que veem a morte como o fim da existência. Ser só é diferente de estar sozinho. Todos somos sós. Estar sozinho é a situação onde o outro não está presente. Ser só é semelhante a ser único. Eu sou um, ele é um, você é um. A solidão criativa não traz sofrimento, ela é uma opção de contato com este nosso aspecto constitutivo. Neste contexto é a expressão da nossa unicidade. Segundo Schopenhauer, "solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais". Sofremos com a solidão porque ela nos demonstra o quanto necessitamos do outro. Temos que aceitar o ser humano como um ser social, que precisa do grupo para sobreviver. Ela, a solidão, está sempre aí, acontece que por vezes os contextos em que vivemos evidenciam a sua existência.

Os fins de tarde e os domingos, por exemplo, são momentos em que o mundo ao nosso redor para. A máquina do mundo interrompe suas atividades e é o momento do voltar-se para a vida pessoal. É o momento do esvaziamento operacional que ocupa o dia a dia, é o momento do desentulho material, já que o meio da semana, preenchido com o trabalho, desocupa a pessoa dela mesma. É o momento de contato com a solidão, momentos em que entra-se em contato com temas difíceis da existência. Existe uma inquietação que é inerente ao ser humano, que se expressa por um impulso natural na busca de sentido e progresso. Existe porém, o tédio, que se configura na paralisação do ser diante da impossibilidade da realização de suas aspirações. Acontece quando a pessoa deixa de viver a realidade tal como ela é, uma vez que esta não se configura da maneira como gostaria que fosse. Deixa de trilhar os caminhos possíveis. A vida torna-se impossível e portanto vazia.

O preenchimento da vida tem a ver com a noção de tempo e temporalidade. Tanto para Husserl quanto para Heidegger, o futuro apresenta uma relevância significativa na existência humana já que se concretiza numa dimensão originária, que impulsiona, que oferece sentido e intenção à existência e sem o qual não existiria consciência nem Dasein. O futuro é dinâmico e se refere àquilo que está por trás do visível. Percebe-se que a solidão descrita do ponto de vista teórico é algo encantador e convidativo à alma humana. Chega a representar um porto seguro ou um local onde o ser sente seguro e confortável, um refúgio a um espaço terno e familiar: dentro de si mesmo. Do ponto de vista prático entretanto, percebe-se a solidão como sendo um dos aspectos torturantes da existência. No contexto prático ela surge associada à angústia.

Compreendendo a angústia como a presença de uma possibilidade, percebemos a vinculação do conceito de angústia ao de liberdade. Há quem renuncie à liberdade para livrar-se da angústia. Quando a liberdade, as possibilidades e a angústia são rejeitadas, se faz presente a culpa, onde o indivíduo está em débito com aquilo que é dado em sua origem. A culpa também é uma característica ontológica e um modo de ser do Dasein. Esta diferencia-se da culpa e da angústia neurótica ou mórbida, que acarretam formação de sintomas. A angústia existencial não pode ser curada, pode ser assumida pelo que Tilich denomina a "coragem de ser". A reflexão sobre a angústia leva ainda à reflexão sobre o desespero, que é a incapacidade do ser se posicionar diante do não-ser.

Enfim, a solidão para o senso comum, para a sociedade, é vivida como algo desesperador e nos leva a reflexões ainda mais extensas sobre o tema. Não é possível concluir o assunto, mas refletir sobre alguns aspectos que lhe são pertinentes e esta foi a proposta do presente texto. O que se ressalta no estudo sobre a solidão é que ela marca nossa excepcionalidade enquanto ser, marca nossa unicidade e vivê-la de forma criativa ou não, depende de uma opção: escolher a si mesmo. Não é mágica, não é mistério, é um processo lento e gradual de nascimento para a própria existência. É um processo de mudança que precisa ser trilhado pela humanidade passo a passo, respeitando-se o primeiro passo que acredito ser a intenção - ação interna - de escolha de si mesmo. Assim vejo o começo e assim concluo: "Todo início é sagrado porque possui as energias do começo. Todos os passos em direção à mudança começam do primeiro, o mais difícil. Quando uma pedra se parte não se pode determinar qual foi a martelada vitoriosa: se a primeira ou a centésima..." Faço votos de que todos nós possamos iniciar um contato com a solidão da existência humana.

Graciele Girardello é neuropsicóloga e escreve aos sábados para A Gazeta. E-mail: g.girardello@terra.com.br

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