CONFLITO DIGITAL 07.04.2026 | 08h46
Roberto Sungi/Estadão Conteúdo
Uma disputa política em torno do Pix passou a mobilizar o cenário eleitoral e acirrar o embate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). O tema virou alvo de trocas de acusações e é visto por analistas como um trunfo nas estratégias eleitorais de 2026.
A situação tem repercutido desde que o relatório anual de comércio dos Estados Unidos disse que a modalidade de pagamento brasileira gera uma “disputa desleal” às operadoras de cartão de crédito. O diagnóstico foi visto como uma forma de o governo americano marcar posição contra o Pix.
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Analistas políticos ouvidos pelo R7 consideram que o debate sobre o Pix pode influenciar a avaliação da sociedade sobre Lula e, por tabela, ter reflexos eleitorais. A chance de elevar a popularidade do presidente depende da forma como o petista explorar a ferramenta.
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“Essa reação do governo pode ter efeito eleitoral muito positivo, especialmente pelo mesmo mecanismo visto na defesa do tarifaço. Seria o sentimento da defesa nacional, sentimento de soberania”, analisa o cientista político Rócio Barreto.
Ele também pontua a necessidade de cautela no uso eleitoral, pelo risco de o tom sobrecarregar os feitos do governo.
“Existe uma certa limitação, porque o impacto pode ser muito forte e se voltar a temas de inflação e renda. E o excesso de tom ideológico pode afastar eleitores mais moderados”, opina.
O cientista político André César também considera que o uso do Pix pode trazer ganhos eleitorais a Lula, o que condiciona adversários a adotarem tom semelhante, evitando críticas ao sistema financeiro.
“De fato, o governo e o Lula, em especial, podem usar a questão do Pix como um tema de soberania”, avalia. “Quem é contra o Pix no Brasil? Ninguém é contra. É algo muito forte, que está introjetado”, acrescenta.
Os dois analistas consideram que as críticas dos Estados Unidos estão alinhadas a interesses próprios. A avaliação é de que empresas financeiras estrangeiras diminuíram suas operações, com redução de lucros para os EUA, e que não cabe contestação a uma política brasileira.
“É uma infraestrutura doméstica como qualquer sistema público. Não impede atuação de cartões, apenas oferece mais uma modalidade. E as pessoas optam pelo Pix por não pagar nada [a mais] e ter transferências instantâneas, rápidas e mais seguras. O comércio dá desconto em pagamento em Pix exatamente por não pagarem o percentual que as administradoras querem”, pontua Barreto.
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Eco do tarifaço
Sob reserva, cientistas políticos que atuam junto a empresas americanas também consideram que o uso do Pix pode beneficiar Lula a seis meses da eleição, a exemplo da elevação de popularidade do governo ao reagir ao tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos.
A medida econômica foi anunciada em julho de 2025. Nas semanas seguintes, Lula reagiu à medida, prometendo até aplicar uma tarifa recíproca.
Com isso, a aprovação do presidente subiu, de acordo com pesquisas de opinião. Monitoramentos da Genial/Quaest mostraram um desempenho melhor de Lula frente a Bolsonaro, em acompanhamentos feitos de julho a dezembro.
O último levantamento ligado ao tarifaço de 2025, divulgado em 16 de dezembro pelo centro de pesquisa, mostrou que 54% consideram que Lula e o PT se saíram melhor no embate sobre tarifas, enquanto 24% avaliaram o desempenho de Bolsonaro e aliados como superior.
Troca de acusações
As críticas mais recentes ao Pix feitas pelos EUA provocaram reação imediata do Executivo e acirraram o confronto político. Lula afirmou que o Brasil não aceitará interferências externas no sistema. “O Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a gente mudar o Pix”, declarou o presidente.
O posicionamento foi endossado por outros integrantes do governo, incluindo o vice-presidente Geraldo Alckmin, que destacou o sucesso e a eficiência da ferramenta.
Em outra frente, o PT atribuiu as críticas à ferramenta à atuação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos. O partido associou a reação à proximidade do senador e pré-candidato ao Planalto com o presidente Donald Trump.
Flávio rebateu as investidas e negou qualquer intenção de alterar o sistema em um eventual governo. Ele também acusou o PT de tentar se apropriar politicamente do Pix e atribuiu a criação da ferramenta à gestão de Jair Bolsonaro.
“O Pix já é um patrimônio brasileiro, um legado muito importante criado pelo presidente Jair Messias Bolsonaro. Mas até isso o PT tenta roubar”, disparou.
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