'conselho de paz' 24.01.2026 | 09h03
Daniel Torok/Official White House Photo - 26.10.20
A tentativa do Brasil de manter boas relações com China e Estados Unidos ficou ainda mais delicada nas últimas semanas. Declarações do presidente Xi Jinping, com recados sobre o papel do governo Lula na ONU e críticas indiretas à iniciativa diplomática de Donald Trump de criar um “Conselho de Paz” na Faixa de Gaza, acenderam um alerta em Brasília sobre o risco de atritos e cobranças em um cenário internacional cada vez mais polarizado.
Leia também - Investigado por homicídios morre em ação do Bope em MT
A sinalização do líder chinês ocorre em um momento em que o governo brasileiro tenta preservar espaço de manobra e evitar que a disputa entre as duas potências se transforme em pressão direta sobre decisões do país.
Para o professor João Alfredo Lopes Nyegray, doutor em internacionalização e professor de geopolítica e negócios internacionais da PUC-PR, o Brasil só consegue sustentar relações estratégicas com os dois polos se adotar pragmatismo e foco em interesses concretos.
“Na prática, o Brasil só consegue sustentar uma parceria estratégica simultânea com China e Estados Unidos se operar com uma lógica de ‘autonomia por diversificação’, e não de neutralidade retórica”, analisa.
Na avaliação do especialista, a estratégia não significa “ficar em cima do muro”, mas negociar com os dois lados sem sinalizar alinhamento automático ou transformar cada movimento em gesto ideológico.
“O truque não é ‘ser amigo de todos’, é desenhar uma política externa que transforme a rivalidade em margem de manobra: negociar com um lado sem sinalizar alinhamento automático contra o outro, e usar a própria interdependência de ambos com o Brasil como argumento de reciprocidade”, pontua.
Apesar disso, o especialista alerta que a margem brasileira fica menor quando a disputa sai do comércio e entra em áreas sensíveis, como segurança e tecnologia. “Semicondutores, telecom, dados, satélites, cibersegurança e infraestrutura crítica tendem a ser tratados por Washington e Pequim como ‘bens estratégicos’, nos quais a ambiguidade é menos tolerada”, observa.
Na avaliação de Nyegray, esse é o tipo de cenário em que o Brasil pode ser cobrado a fazer escolhas mais explícitas, especialmente em temas ligados a infraestrutura crítica e cadeias de valor tecnológicas.
A cientista política e professora de relações internacionais Denilde Holzhacker afirma que o Brasil tem tradição de atuação multilateral e costuma conseguir construir alianças amplas, principalmente entre países do Sul Global. “Essa é a percepção do Xi Jinping, que os dois países seriam capazes de influenciar nessa construção”, afirma.
Ela avalia que esse capital diplomático ajuda o país a se colocar como articulador em fóruns internacionais, mas não garante poder de influência ilimitado dentro da ONU.
Para Holzhacker, a principal limitação brasileira não é de prestígio, mas de capacidade material para oferecer incentivos e sustentar iniciativas de maior escala. “A gente tem um grande soft power, mas não temos condições de oferecer para os países e mesmo para a própria ONU sermos capazes de garantir em termos de financiamento da organização”, constata.
Conselho de Paz de Trump
Sobre o “Conselho da Paz” criado por Trump, Nyegray avalia que a iniciativa pode funcionar como um mecanismo paralelo de negociação, fora dos canais tradicionais do multilateralismo. “O chamado ‘Conselho da Paz’, visto friamente, tem menos cara de arquitetura diplomática estável e mais cara de instrumento político transacional”, ressalta.
Para o professor, esse tipo de formato tende a operar com convites seletivos e acordos rápidos, o que pode reduzir o espaço de organismos multilaterais tradicionais. “A paz pode ser produzida por arranjos ad hoc liderados por Washington”, resume.
Ruído diplomático
Holzhacker avalia que uma recusa direta do Brasil, sem sinalizações de abertura, pode gerar ruído diplomático com os EUA, a depender do cálculo político do presidente norte-americano. “O Brasil recusar simplesmente sem dar nenhuma outra contrapartida ou outra posição de abertura de sinalização para o Trump, sim, vai gerar provavelmente uma volta do estranhamento”, afirma.
Para ela, o desafio brasileiro é mostrar que não está alinhado automaticamente com Washington em determinados temas, mas que mantém cooperação em outras áreas consideradas relevantes pelo governo norte-americano.
Nyegray também aponta que, num ambiente em que tarifas e medidas comerciais são usadas como instrumentos de coerção, o risco de retaliação existe e pode aparecer de forma indireta. “A retaliação pode não vir como ‘sanção declarada’, mas como medidas com aparência técnica”, aponta.
Holzhacker avalia ainda que o objetivo do governo brasileiro é atravessar essa disputa sem virar alvo preferencial de nenhuma das potências — mas o espaço para manobra está diminuindo. “Esse é o objetivo do governo brasileiro, é conseguir se equilibrar entre as principais potências e sair ileso desse processo. É cada vez mais difícil”, afirma.
Para a especialista, o risco é que a relação do Brasil com a China passe a ser tratada por Trump como um problema estratégico, aumentando a pressão sobre Brasília. “À medida que o Trump entender que essa relação da China com o Brasil é prejudicial para os Estados Unidos, aí o Brasil começa a receber mais pressão nesse sentido”, conclui.
Publicidade
Publicidade
Milho Disponível
R$ 66,90
0,75%
Algodão
R$ 164,95
1,41%
Boi à vista
R$ 285,25
0,14%
Soja Disponível
R$ 153,20
1,06%
Publicidade
Publicidade
O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.