09.03.2006 | 03h00
Desde que me entendo por gente sou portador de uma deficiência visual, a retinose pigmentar. Já na infância, a tal degeneração da retina começou a se manifestar, num processo lento e gradual que logo no Primário (atual Ensino Fundamental) me levou a ter que usar óculos e lupas para a leitura. Mais adiante, aos 15 anos, tive que aprender a escrita em braille. E aos 24 me locomovia com o uso da bengala. Portanto, pretendo abordar alguns aspectos sobre o tema, valendo-me apenas de minha experiência pessoal.
Inicialmente convém observarmos que é muito comum por parte da sociedade em geral, pensar que toda pessoa portadora de cegueira enxerga um "fundo negro". Porém, dependendo de seu comprometimento, podem ser percebidos vultos sem definição e até algumas cores. É a chamada visão residual.
Além disso, podemos afirmar que, mesmo a pessoa portadora de cegueira profunda, desenvolve uma visão que não é a dos olhos, mas sim uma forma de visualização que se poderia chamar de interna ou mental, que definitivamente põe por terra a idéia do tal fundo negro.
Dessa forma, podemos entender aquilo que a medicina moderna nos coloca de que a visão não se faz no olho, mas no cérebro. O olho apenas capta a imagem e a envia, através do nervo ótico para uma região do cérebro responsável pela formação e decodificação da mesma.
Se analisarmos, por exemplo, o que nos acontece quando nos chega ao olfato algum aroma ou odor, perceberemos a semelhança do mecanismo. Experimente prestar atenção ao que ocorre quando passamos em frente a uma padaria que acaba de retirar uma fornada de pães fresquinhos. Certamente aquele cheirinho delicioso vai fazer com que se forme em nossa mente a imagem de um saboroso pão, recheado com tudo aquilo que mais gostamos.
Note que o mesmo se dá em relação aos sons que ouvimos. Uma música pode nos trazer à tela mental imagens variadas: um lugar, uma cena, o rosto de alguém, etc. Bem como a própria voz de uma pessoa mais próxima nos traz quase que instantaneamente a sua imagem associada.
Após esta reflexão, concluímos que quando uma pessoa cega tateia algum objeto ou alguém, ela faz com que sejam estimuladas as terminações nervosas responsáveis pelo tato, analisando parte por parte até chegar à percepção do todo. Essa impressão tátil será transmitida através do sistema nervoso até o cérebro, que por sua vez criará uma imagem correspondente.
Destarte, pode-se afirmar que uma pessoa cega vê. É importante dizer que as variantes ambientais também são percebidas e associadas a esses arquivos de nossa memória. Neste sentido, as descrições verbais de paisagens ou lugares em geral por parte de pessoas videntes para pessoas cegas são extremamente enriquecedoras, pois elas ajudam enormemente na formação das imagens geradas no cérebro.
Finalmente, sugiro ao leitor que na companhia de um amigo procure fazer o seguinte exercício: com os olhos fechados, peça a ele que lhe entregue algum objeto desconhecido. Vá tateando e sentindo as suas formas, texturas, temperatura e contornos. É claro que você vai reconhecê-lo. Nesse momento, a incrível mágica que sua mente lhe proporcionará é que terá resgatado de sua memória e trazido à tona a imagem associada ao objeto em questão. Você terá experimentado a visão através das mãos, vendo o que uma pessoa cega vê.
Convém ressaltar que, como tudo na vida, a prática é fundamental. Dependendo do tempo que o cego convive com essa limitação e da sua própria capacidade de se adaptar à sua condição. Assim esse mecanismo será mais ou menos desenvolvido, oferecendo-lhe maiores ou menores recursos de visualização.
Glauco Cerejo é músico e professor de música.
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