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Cuiabá, Terça-feira 03/11/2026

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03.11.2026 | 12h23

6 meses depois

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Roberta D'Albuquerque

Divulgação

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Guilherme acordou com 3 braços. O terceiro saía assim meio que da base do pescoço, coisa esquisitíssima. Descobriu justamente por causa da dormência. Era como se tivesse dormido com a namorada apoiada no ombro. Só que ela tinha ido embora fazia mais de 6 meses já. O próprio corpo tinha feito peso. Deu uma dorzinha nas costas também. Foi o membro novo quem fez massagem, nasceu sabendo.

 

Sorte que São Paulo acordou frio na segunda (isso foi segunda passada). Ele botou um moletom folgado e pegou o ônibus a caminho do trabalho em pé, embora houvesse lugar sobrando pra sentar. O dia passou meio torto. Se desse uma coceirinha nas costas, o braço — da cabeça dele — coçava. Se alguém dava tchau, ele tinha uma vontade danada de responder. Se Guilherme encostava na cadeira, ele mesmo empurrava de volta.

 

Parece pior do que foi. Guilherme só lembrou da novidade no banho. Inclusive não percebeu que tanto o novo quanto os velhos deram uma encolhida. E, como não percebeu, acabou não se assustando. Inclusive o banho foi até mais rápido, já que o braço recém-nascido não perdia tempo. Quando deitou — de barriga pra baixo — pra dormir, lembrou que Juliana foi embora dizendo que ele era braço curto. Riu sem saber do que ria. Mas riu bem pouquinho porque a frase era maior. "Braço curto, nariz empinado…". E tinha outra coisa, mas ele esqueceu.

 

Não pregou o olho. Lá pelas 4h, 4h30, o olho pesou. Na terça, abriu os dois pesados, mesmo já tateando o nariz. Sentiu diferença nenhuma. Podia ser que nada tivesse acontecido, podia ser que fossem as mãos. Só ele vai saber dizer. O que eu posso contar é do porquê separaram. Foi isso mesmo, braço curto, fazia nada em casa e queria tudo pronto. Nariz empinado, uma exigência danada, e a outra reclamação dizia respeito às contas. Não pagava uma conta de bom grado. Quando Juliana pedia, fazia um drama do mundo todo. Como chama mesmo? Sim, mão de vaca, mão de vaca.

 

O grito de Guilherme ouviu-se do térreo até o vigésimo andar. Ele tava pronto pra ligar pra ela pedindo pra tirar a praga, mas quem disse que conseguia digitar a senha do celular.

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br

 

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