31.10.2026 | 14h00

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Reprodução
A fuga do senador Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos é um exemplo emblemático da crise que o jornalismo vem enfrentando no país. Me refiro especialmente aos veículos de alcance nacional, que possuem mais recursos financeiros, estruturais e de pessoal. Até onde foi possível verificar, nenhum veículo de mídia nacional estava no aeroporto de Puerto Iguazú no momento do embarque do parlamentar.
A comparação com a cobertura da imprensa do país vizinho evidencia uma falha importante do jornalismo brasileiro. E parto do pressuposto de que as decisões editoriais, nesse caso, não foram de ordem ideológica. O que me interessa é abordar o caso como um reflexo de questões mais amplas vivenciadas no dia a dia das grandes redações.
O site argentino Infobae foi o primeiro a publicar informações sobre o plano para a fuga de Flávio, inclusive exibindo a aeronave estacionada em um aeroporto local que seria utilizada pelo candidato derrotado à presidência. Aos poucos, veículos brasileiros começaram a noticiar o caso.
Empresas de mídia do Brasil e do exterior, como o The New York Times, a agência Reuters e os jornais Folha de S. Paulo e Estadão, divulgaram a informação de que o senador já estava nos Estados Unidos a partir de fontes anônimas nos EUA ou ligadas ao político. Essas informações se mostraram incorretas.
O problema central, a meu ver, é que as grandes empresas brasileiras de jornalismo falharam ao não deslocar repórteres para o aeroporto de onde o político fugiria (ou de onde teria fugido, como se acreditava naquela altura). Nem mesmo os veículos que possuem correspondentes fixos naquele país.
A postura da imprensa argentina foi outra. Emissoras de televisão mantiveram equipes no local ao longo do dia e da noite, acompanhando a movimentação. Perto do início da madrugada de quarta-feira (28), os canais de TV C5N e Todo Noticias registraram, ao vivo, a chegada da van que trazia Flávio e sua família ao aeroporto e, posteriormente, a decolagem do voo que levaria o senador para a Flórida, com escala em Guayaquil, no Equador.
Enquanto os grandes jornais e redes de TV cravavam que o ex-candidato já estava na América do Norte, Flávio estava, ao longo de todo o dia, se deslocando em direção à fronteira ou escondido até o momento ideal do embarque.
O episódio revela muito mais do que um simples erro de apuração. Desde a pandemia, parte da imprensa brasileira parece ter aprofundado um distanciamento em relação às ruas. Falo especificamente da concentração da opinião em detrimento da reportagem. É claro que há espaço para comentários e análises na imprensa — e isso remonta aos primórdios da profissão, lá no século 17. Mas sempre houve um entendimento de que a reportagem é a base sobre a qual se constrói um entendimento a respeito da realidade.
Talvez por comodidade ou economia, muitas redações adotaram um modelo em que vários jornalistas se revezam ao longo do dia diante das câmeras, analisando os acontecimentos e dando opiniões sobre os fatos que, em muitos casos, eles não puderam acompanhar de perto. Também é comum o uso de aspas enviadas por meio de aplicativos de troca de mensagens, às vezes veiculadas sem a checagem necessária para oferecer uma versão mais precisa e confiável dos fatos.
Também pesa o fato de jornalistas veteranos perderem espaço no mercado. Um dos motivos é financeiro. A redução de custos pode explicar esse movimento: profissionais com extenso currículo e trajetórias já consolidadas custam mais caro, mas trazem mais fontes, maior facilidade de acesso a órgãos públicos e maior compreensão do contexto histórico. Certamente, a juventude não significa falta de competência, do mesmo modo que a experiência, por si só, não garante qualidade. Mas é inegável que essa substituição pode comprometer a memória das redações, os processos de apuração e checagem e, no fim da cadeia, a própria qualidade do jornalismo oferecido ao público.
O jornalismo vai sobreviver e se adaptar às transformações cada vez mais dinâmicas na produção e disseminação de conteúdos. Mas talvez seja preciso voltar às bases na prática profissional. Cláudio Abramo deu o norte: é preciso “gastar a sola dos sapatos”. A cobertura da fuga de Flávio Bolsonaro mostrou que o jornalismo não pode abrir mão de colocar repórteres nas ruas. Começar por aí seria uma boa ideia.
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