02.06.2026 | 11h49
Divulgação
A cozinha é um espaço de subsistência, mas não só do corpo. É um território de preservação política, fraterna e cultural de uma família ou de uma comunidade. A comida é um elo comunitário indissociável. No caso da cozinha quilombola, os sabores e aromas contam memórias ancestrais, com a urgência necessária à resistência contemporânea, provando que o fogão a lenha e o caldeirão são ferramentas tão potentes quanto o discurso escrito. Os pratos que de lá saem e os encontros que, por intermédio dela, surgem são formas de se (re)escrever a história, pois os registros oficiais muitas vezes tentam apagar as subjetividades negras e silenciar suas trajetórias.
A comunhão que o alimento temperado por uma ancestralidade milenar propicia revela uma identidade pulsante que se mantém viva, também, através do paladar. Cada ingrediente — do milho ao feijão, das ervas colhidas no quintal aos preparos herdados dos antigos — e cada história ou ensinamento compartilhados carregam consigo o DNA de uma resistência que se negou a desaparecer diante das opressões.
Nos quilombos, o ato de cozinhar sempre foi, é e será um exercício de compartilhamento e de proteção mútua. A resistência reside justamente na manutenção dessas práticas coletivas, que se opõem à lógica individualista e industrial da modernidade. A preservação e divulgação das receitas e das técnicas gastronômicas ancestrais garantem que as novas gerações saibam de onde vieram, estabelecendo uma soberania que passa pelo domínio do cultivo e do preparo do próprio alimento como um ato de independência, de luta contra a subalternização. O alimento é o veículo de um afeto profundo, um amor que sobreviveu aos traumas da diáspora e se reinventou no cotidiano das comunidades.
Deve-se ter em mente que a luta pelo território não se faz apenas com demarcações geográficas, mas com a legitimação dos costumes e dos saberes tradicionais. A luta pela manutenção e valorização da cultura negra sempre foi preparada por mãos sábias, com tempero forte, ao som de música e gargalhadas, em volta de uma mesa farta.
Celebrar essa culinária é, acima de tudo, um dever ético de validar a existência e a resistência de povos que, há séculos, sustentam a alma, o corpo e a identidade deste país. Através do sabor, o quilombo se faz eterno e presente, transformando cada refeição em um manifesto político de sobrevivência e dignidade. Todo brasileiro nasceu em um quilombo, mesmo que não saiba disso.
Du Prazeres é autor do livro “Quilombo: contos e receitas”, professor universitário e pós-doutor em Letras.
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