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02.02.2026 | 11h37

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Roberta D'Albuquerque

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Fiquei sabendo na semana passada que as corujas levam em média 17 anos para esquecer a raiva que sentem de alguém que lhe fez mal. Tive uma peninha. No começo foi uma peninha das corujas. Imagina que duro; 17 anos é muito. Eu tinha 30 anos há 17. Uma vida. Depois tive dó do destinatário da raiva. Ao mesmo tempo, que tipo de pessoa faz mal a uma coruja?

Hoje, um dos meus analisando da manhã sentou na poltrona e puxou para si um lencinho. Chorou, pegou outro, mais um. Depois colocou a caixa no colo como quem diz pra si (e pra mim) “prepara que vem mais”. Nunca vi esse menino tão triste. Ficou sabendo que fez mal a um amigo. Foi ele quem disse. O malfeitor sequer tinha percebido.

 

Este amigo do meu paciente tem pouco de coruja. Não porque não seja sabido, mas porque estava mais interessado em parar de ser machucado, entender o que tinha acontecido, comunicar a dor, construir junto alguma reparação. “E olha que ele é de escorpião, Rô”, me disse o analisando agarrado na almofada e na caixinha de lenço, molhando até a gola da camisa de lágrima. Rimos juntos, mas tive uma peninha. Ao mesmo tempo, que tipo de pessoa faz mal a um amigo?

 

Ué, um tipo de pessoa como eu, como tu, como ele, nós, vós, eles. A gente é feito de um monte de ingredientes, não é? Nem todos dão orgulho de mostrar. No choro, 1 xícara de tristeza, 3 de vergonha, uma pitada de surpresa, uma colher de sopa de arrependimento, polvilha medo de não dar conta de reparar, forno pré-aquecido a 200°C até ficar dourado. “Eu sou um urubu mesmo, vi que ele não estava bem e piorei tudo”. Calma. Nem urubu, nem coruja, nem pomba lesa.

 

Pesquisei. A história da coruja não é do jeitinho que ouvi. Não dá para atribuir exatamente raiva a elas, mas boa memória associativa (lembram o que aconteceu para se protegerem do risco) e boa capacidade de reconhecimento visual e comportamental (aprendem e, portanto, não se colocam em posição de serem atacadas novamente nem pelo mesmo sujeito, nem da mesma forma).

 

Achei bonito isso e fiquei com vontade de espalhar a palavra pra gente ser um pouquinho mais esse tipo de escorpiano, esse tipo de coruja (o tipo do amigo do meu analisando). Anota aí: 1 xícara de memória, 3 de olhos grandes pra prestar bem muita atenção, uma pitada de “opa, aqui não”, uma colher de sopa de comunicação efetiva, polvilha capacidade de ultrapassar se houver reparação e se o vínculo for importante, forno pré-aquecido a 200°C até ficar dourado.

 

Boa semana, queridos.

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br

 

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