13.10.2026 | 11h26
Divulgação
De menina, sempre achei a coisa mais bonita nome de flor: estatística, boca-de-leão, amor-perfeito, rabo-de-gato, sapatinho. Mas copo-de-leite me ganha até hoje. Primeiro pelos hífens, quase como se eles fossem as hastes. O copo, o de e o leite, as flores. Depois pelo verde que insiste. Por mais coloridas que sejam, obedecem a um degradê de verde que vaza da haste pra flor. Parece que essa parte que estou chamando de flor, nem flor é, é folha. Espata o nome. Só melhora. No centro, ficam mini florzinhas que agora, sem óculos, nem enxergo mais. Diz que é tóxica se mastigada. Contém
cristais de oxalato de cálcio que podem provocar ardência e inchaço na boca. Também quem mastigaria uma lindeza dessas.
Domingo ganhei flores do Paulo. Em um conjunto de brancos e verdes, um copo-de-leite. Hoje perguntei se já tinha lhe contado do quanto gosto desta uma específica. Ele disse que não. Embora procurando aqui na galeria de fotos, todos os buquês que me deu tenham vindo com ela. Achei terno isso. Quase como uma espata. Pesquisei. Espata é uma espécie de invólucro que protege os botõezinhos das flores quando em formação. Fiquei imaginando as sincronicidades assim,
protegendo as relações sempre e pra sempre em formação.
Depois das flores, fomos à Paulista. Foi impressionante como são os momentos em que se sente a força de muita gente junta. Não largamos a mão um do outro nem um momentinho. Lotado, as fontes oficiais dizem de mais de um milhão de pessoas. Lara, a minha mais velha, também foi, mas com os amigos. Se alguém me dissesse que essa menina estaria longe de mim em um concentrado desse tamanho, fosse qual fosse a razão, eu sentiria medo. Mas não senti. Confiei na espata. Mais do que eu, se tivesse perto dela, a espata do coletivo protege minha Lola.
Nas fotos que me mostrou agora, me comovi especialmente com a da menina gritando embaixo de uma bandeira enorme que vi passar ao vivo no meio da rua. Não imaginei que dois dos muitos bracinhos que a seguravam eram os dela. Estava inteira refletida de vermelho. Em formação. Um vermelho que insiste. Que insista! Boa semana, queridos.
Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
Coluna semanal atualizada às segundas-feiras
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